domingo, 7 de setembro de 2008

Vivemos na velocidade sexual da luz

Sou assinante do jornal Correio do Povo, um dos jornais mais antigos deste Brasil,  gosto muito de ler as crônicas do Juremir Machado da Silva-escritor, jornalista e professor universitário- e com a sua autorização transcrevo aqui um artigo que eu li relacionado ao post de 5/9 que escrevi aqui. O texto do Juremir é este:

CHOQUES CULTURAIS

Depois que o homem inventou o prendedor de roupas, num salto tecnológico sem precedentes, não parou mais de transformar o natural em artificial. Samuel Huntington afirma que há um choque de civilizações opondo Oriente e Ocidente, islamismo e cristianismo, razão e fé. Pode ser. Michel Houellebecq fala em mutações – alterações radicais de comportamentos nas civilizações. Tudo muda. Uma prova disso estaria nas formas de aproximação, casamento, acasalamento e separação dos seres humanos. Antigamente, em tempos imemoriais, havia o namoro, o noivado, o casamento, o sexo, a procriação, o adultério e a separação pela morte. Depois, num desses vertiginosos pulos civilizacionais, suprimiu-se o noivado. Foram necessários alguns séculos até se conseguir eliminar essa fase aborrecida que podia durar de três meses a 30 anos sem que se tivesse mais direitos e liberdades do que durante o namoro, mas já com um ar de casamento antigo.
Os jovens rebeldes de maio de 1968 tentaram subverter totalmente a ordem das coisas, eliminando o adultério pela introdução do amor livre e antecipando o sexo para antes do casamento. Uma das correntes mais radicais de maio defendeu a possibilidade da prática do sexo antes, depois e até durante o casamento. Houve também quem tentasse simplesmente suprimir o matrimônio. Tempo perdido. Ele reapareceu sob a forma de concubinato estável. O casamento mudou radicalmente nas últimas décadas. Nem vou falar do fato de que, nos primórdios, o casamento previa a união de indivíduos de sexos diferentes, o que era bastante restritivo, embora anatomicamente bem encaixado. Nada, claro, que a tecnologia já não tenha resolvido. O progresso continua.
Assim como o noivado, um vestígio ainda encontrado em algumas cidades sem Internet nem telenovela, o namoro também está em extinção. As novas gerações praticam o ‘ficar’. É tudo mais prático. Antes existia aquela conversa sobre família. Agora nem precisa anotar o endereço. Antes era preciso ter filho. Agora basta um cachorro. Antes, ‘ficar’ significava algo estável. Agora quer dizer que não foi necessário permanecer. Uma união estável é aquela que ainda não terminou. O dinamismo exige raízes flutuantes. Antes, a questão era sobre a possibilidade de fazer sexo antes do casamento. Agora é sobre a possibilidade de fazer sexo antes de jantar.
Vivemos numa época da aceleração total. Passa-se do ‘ficar’ ao casamento e deste ao divórcio no mesmo tempo que a mídia leva para descobrir mais um político corrupto no Brasil. Tempo é emoção. Ninguém quer ficar parado no tempo. Há alguns anos, quando a revolução comportamental parecia uma coisa futurista e de louco, embora hoje isso se apresente como uma bobagem do tempo da vovó, um homem convidava uma mulher para jantar e depois a levava (ou era levado) para a cama. Era um escândalo. Com freqüência, dava certo. Só que era tudo muito lento. Havia a etapa do restaurante, o vinho, no caso dos mais sofisticados, a sobremesa, as preliminares, etc. Era como o VT de uma final de campeonato sem a eliminação do tempo de bola parada. Surgiu um novo salto cultural. Agora, em vez de levar para jantar e depois para a cama, leva-se para a cama e, se der muita fome, leva-se depois para jantar. Faz sentido. É uma questão de prioridades. A vida não pára. Vivemos na velocidade sexual da luz.

O título deste artigo tirei da última frase do texto aqui transcrito, que achei bárbaro. Agradeço ao Juremir por autorizar a reprodução e deixo o seu e-mail para quem quiser contactar:  juremir[arroba]correiodopovo.com.br

Você pode acompanhar as resposta a este tópico através do feed RSS. Você pode deixar um comentário ou colocar um link diretamente do site.

14 Comentários

07 de setembro de 2008

Mude a forma de apresentação do endereço de mail, senão, os SPAMs farão a festa na caixa postal dele.
Sugerido: juremir [arroba]correiodopovo.com.br

Quem for escrever, saberá. Quem quiser escrever e não souber, aposto que não tem nada interessante para dizer.


07 de setembro de 2008
Paulo R. Diesel

Valeu Sérgio. Sugestão aceita.

Abraço.


08 de setembro de 2008

bem colocado este texto na categoria “textos incríveis”… vale cada palavra, cada pensamento… a verdade com delicado bom humor…

abraços e boa semana Paulo.


08 de setembro de 2008

Fantástico o texto! Adorei, muito bem escolhido! Beijos


08 de setembro de 2008

Um belo texto o do Jurandir.
Ainda me impressiona essa velocidade sexual. E com esse mundo virtual é que tenho me espantado mesmo.
Daria vários post.
abraços e um bela semana.


08 de setembro de 2008

Oi moço do sonho!
Td bem?
Tem selinho p/ vc!
Espero que goste!
Bjs


08 de setembro de 2008
Paulo R. Diesel

Rose:
Obrigado, também gostei muito.

Valeu Dama.
Beijo

Explore-a então. Quero ver um artigo lá Paula.
Beijo

Selinho sempre é bom Renatinha ./rs
Já vi.
Beijo.


09 de setembro de 2008

excelente este artigo!!! não sei me enquadrar em toda essa “modernidade sexual”

beijo Paulo


09 de setembro de 2008

Acho que a velocidade é tanta, que nos perdemos!
Gostei do texto e da receita de doce de abóbora! rs…

Um abraço!


09 de setembro de 2008

Texto excelente mesmo!
Eu dava aula para adolescentes e confesso, eu que até então me considerava jovem me sinto ultrapassada com as conversas dessa garotada de 13 anos.

Vivemos na velocidade sexual da luz, definitivamente!


09 de setembro de 2008

Bem, eu que sou uma incorrigível romântica, isso tudo me assusta.
Mas devo concordar tb, que muita coisa com essa mudança, deixou pra trás, as imposições, que na maioria das vezes, tornava o ser humano infeliz pro resto da vida… enfim, adorei o texto. Parabéns! bjos


09 de setembro de 2008
Paulo R. Diesel

Layla:
Vamos observando…
Beijo.

Sônia:
Obrigado pela visita.
Em algumas coisas é necessário frear.
Beijo.

Poetriz:
A maioria é só teoria.
Beijo.

Obrigado Crys.
Beijo.


10 de setembro de 2008

O que me leva a pensar: por que as pessoas complicam tanto as coisas? Namoro, noivado, casamento e por aí vai… Nossa! O texto me fez lembrar do tempo em que as tias da vida passavam a mão em minha cabeça ( isso era irritante) e perguntavam-me “já está namorando?” e a resposta “não” parecia uma agressão contra elas. E a pergunta seguia ano após ano e a resposta também. risos


10 de setembro de 2008
Paulo R. Diesel

Passamos por cada uma.
Primeiro incentiva-se, depois desencoraja-se.
Fazer o certo que é o difícil.
Abraço, Lunna


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