Todos podemos ser empreendedores
Muito tem se falado em empreendedorismo e apesar de ser uma palavra da moda, atualíssima, já se o praticava desde a muito e em muito maior escala, pois empregos pouco existiam e idade não era impeditivo para nada.
Tinha eu lá os meus 11 anos quando já auxiliava no complemento do orçamento familiar. Claro que o principal era brincar, jogar bola e estudar, mas todo sábado tinha aquele compromisso: Ir até a casa do representante na cidade do “Jornal Nova Geração”, aguardar até que ele nominava a capa com aqueles inúmeros nomes (em torno de 80) e ir de casa em casa entregando o jornal semanal que saia com as notícias quentinhas (impensável nos dias de hoje). Com sol ou com chuva, no frio ou no calor, lá ia eu com os jornais debaixo do braço a entregar. Ganhava em torno de R$ 10,00 fora as gorjetas recebidas por exemplo do “Seu Kohl”, um alemão que fugiu para o Brasil, no meio da 2ª Guerra Mundial, e, veio parar em nossa cidade. Era o meu cliente preferido, pois as gorjetas eram quase iguais ao todo recebido.
Mas se a semana tinha sete dias, porque trabalhar em um só?

Descobri que um agricultor que também plantava hortaliças precisava de alguém para vendê-las de porta em porta. Como o carrinho-de-mão era muito pesado, fizemos uma parceria, eu e meu irmão, e saímos a vender repolho, beterraba, cenouras, alfaces. Isto também nos deu um bom rendimento.
Jornal vem, repolho vai e fui procurado para trabalhar no “boliche”.

Não era como hoje, tudo automático. Duas canchas paralelas. Numa ponta o pessoal que jogava a bola (Grupo de bolão “Força Madame”) e na outra nós, eu e um colega, torcendo para que poucos pinos fossem derrubados para que poucos tivéssemos que pôr de pé. Ainda lembro, em terças-feiras a tarde, por cerca de 4 horas, recebendo um refrigerante e cerca de R$ 5,00, que logo passaram para R$ 15,00 pois em quintas-feiras à noite surgiu uma vaga no “Bolão” masculino e lá estava eu, pronto a prestar o serviço.
Era uma rotina que me encantava. Pela manhã o estudo e a tarde/noite o trabalho que era gratificante e não perigoso apesar de que as vezes um pino do bolão voava pela força das bolas, mas não nos atingia, só assustava, ou um cachorro mais nervoso que não nos deixava entregar o jornal em determinada casa.
A venda das hortaliças, por vezes, sofria uma queda pois não era sempre que conseguiam produzir (clima) e então surgiu a oportunidade de mais uma tarefa. Pães e doces.

O padeiro “Larssen” já tinha alguém que lhe fazia as vendas mas uma determinada área da cidade não era atendida, prontamente me candidatei e passei a vender. Era uma cesta de vime onde cabiam cerca de 20 pães e alguns doces – “cocada”, “mil folhas”, “sonhos”, cobertos por um pano branquíssimo que mantinha moscas e poeira longe. Não lembro quanto recebia, mas ver a alegria de alguns agricultores em áreas mais distantes recebendo um pão branco, de leite, francês ou um sonho, uma cocada, não tinha preço. Lembro-me que na maioria das vezes, quando voltava à padaria para fazer o acerto sobrava pouco, pois o sonho era muito bom, o pão matava a fome e a gula e eu acabava degustando boa parte do produto de minha venda.
Entre 11 e 13 anos dediquei-me a estas tarefas, sem descuidar dos estudos, sei que hoje tem lei que limita a idade para o trabalho, mas isto é assunto para outro artigo, e só abri mão do trabalho autônomo, empreendedor, porque ingressei com quase 14 anos na empresa em que o meu pai trabalhava, com carteira assinada e porque via os valores que recebia integrarem a receita geral para o orçamento familiar os pais faziam a parte do governo e sobrava pouco para gastar com lazer, ou algum investimento e/ou aplicação que eu gostaria de fazer.
O valor recebido não era muito mas este trabalho me ensinou a ter responsabilidade, a lidar com horários, a manter contato com clientes, a administrar o tempo e o dinheiro com efetividade.
Na época não sabia o que era empreender, mas estes exemplos são bem práticos e podem servir para quem tem dúvidas e resolver, também, se dedicar.
6 Comentários
Belíssimos exemplo. E mostra que o trabalho nessa idade mais forma que deforma.
abraços
Seu depoimento demostra que o esforco, a forca de vontade aliada a uma boa orientacao (pq o trabalho de seus pais foi bem feito), so levam a bons exemplos.
Abracao.
Não sei Paulo, acho que não tem idade certa para trabalhar. O certo é que não se deve deixar os estudos de lado, mas quanto ao trabalho, acho que o importante é não fazer uso disso como forma de escravidão ou outras alternativas existentes mundo a fora.
O trabalho dignifica o homem (li isso em algum lugar) contato que este seja motivo de prazer e não de dores para o resto de toda uma vida…
Abraços meus
Interessante! hehehheh Trabalho no jornal Nova Geração há três anos…
Para quem quiser acessar, o NG está com site desde maio deste ano. O endereço é http://www.jornalng.com.br =)
Valeu Simone.
Tentei linkar o site mas não consegui, vou alterar.
Obrigado pela visita.


Bons exemplos a serem seguidos!