Somos todos loucos
A plateia repleta presta atenção no orador que não diz nada. As luzes piscam e os tiros pipocam lá fora. É o fim. Continuamos ouvindo os sons que modificam o nosso pensar. Subitamente o silêncio toma conta do local, ouve-se até o respirar de alguns, percebe-se no ar um misto de ansiedade e medo pelo que está por vir. As luzes se apagam e ouve-se um grito no fundo da sala, corremos, todos, em direção a ele, mas ele já se foi. A corrida é em vão, pois por mais que se corra não se chega a lugar nenhum. As luzes voltam, o teatro ainda está repleto e a plateia está confusa. O orador, perplexo, dá continuidade ao discurso, mas suas palavras se acavalam umas sobre as outras e deixam o público ainda mais confuso. A porta da frente é aberta a ponta pés e todos se voltam para ver o que é que há. Homens fardados e armados  penetram e apontam seus fuzis em nossa direção, ninguém reage pois os argumentos agora apresentados nos convencem do contrário. O orador sorri e arruma o cabelo e acerta a gravata que estavam em desalinho e segue expelindo as suas palavras que nos confundem tanto. Prestamos, novamente, atenção e concluímos que dito daquela forma, mesmo não tendo conteúdo, poderia servir para algo ou para alguém. O orador dobra a última folha e agradece a atenção da platéia, coloca as folhas dentro da pasta, pega-a na mão esquerda e encaminha-se para a saída, acompanhado pelos homens armados e fardados, para na porta, vira-se, olha para trás, acena e se vai. O último homem fardado fecha a porta e a tranca. Olhamo-nos e procuramos em silêncio a resposta para esta apresentação. Percebemos no silêncio do momento que os pensamentos de uns são iguais aos dos outros e a confusão que se instalara acabou. Sair é preciso, mas as portas não se abrem e o último som que ouvimos é o de uma bomba que cai do avião que sobrevoa a cidade e mata todos os que prestaram atenção mas não entenderam o discurso do orador. O orador passeia pela praça da cidade e discursa aos pombos que insistem em lhe ouvir. Os homens fardados e armados aguardam a próxima ação.
3 Comentários
Pois… Como homens, pombos não entendem nada… Não deveria ser assim.
Gostei da dinâmica do conto.
Abraço
Paulo,
A conclusão de Adriel está prevista para 23/08/09, mas não precisa ler até lá se não está gostando.
Abraços


Pombos também não entendem nada, vai chover bomba ou melhor, pombos.