Presentes que trazem lembranças – o que vale é a intenção
Flores, perfumes, celular, par de botas, o presente tanto faz, o que vale é a intenção e o escolhemos de acordo com a disponibilidade de dinheiro e o tamanho do impacto que queremos causar e sobre isto tenho uma história que me foi contada pelo Pedro, aquele meu amigo com o qual sempre troco correspondências, disse-me Pedro:
“Na minha adolescência os recursos financeiros eram reduzidíssimos, pais pobres, família com seis filhos, ração dividida. Presentes? Só no Natal e de acordo com as necessidades: camisetas, calças, blusão…
A casa era alugada, o emprego do pai mal remunerado, mas aos “trancos e barrancos” íamos levando, todos frequentavam o colégio para ter um futuro melhor. A esperança de todos é no futuro. Tá, o colégio era estadual, mas ficava na mesma quadra em que morávamos o que reduzia o gasto com transporte, guarda-chuvas e sola de sapato.
Na escola, na mesma sala, no mesmo 5º ano primário, tem gente que nem sabe o que é isto a filha da professora também estudava, colega de classe, amiga de todos, a mais bonita, fazia aniversário .
Festa marcada, convites distribuídos nem todos os colegas iriam e eis que surge o dilema: Como ir a festa de uma colega, futura “ficante”, dar os parabéns, tomar refrigerante, comer o bolo, comer os brigadeiros, comer os docinhos de coco e todas aquelas guloseimas que, exageradamente, as mães preparavam, sem ter dinheiro para comprar nenhum presente?
Sem coragem para pedir ao pai e sabendo que a mãe não tinha como ajudar, decidi: Não vou a esta festa!
A medida que o dia chegava a ansiedade aumentava, a vontade de comparecer era imensa e na véspera, na sexta-feira, o lembrete final: Tu vais a festa amanhã, disse Maria, a aniversariante(vamos chamá-la assim).
Como não ir se o convite veio formal e agora informalmente? Resolvi ir, mesmo sem aquela grana para o presente.
Preparei-me, colocando aqueles panos, os melhores para a idade e época e tomei a estrada, sem antes receber as recomendações que toda mãe dá e (só mesmo mãe) o presente para Maria, uma rosa vermelha colhida lá no seu jardim.
Fiquei espantado, mas peguei a flor, fui caminhando em direção a casa de Maria, onde a festa realizar-se-ia, pensando e olhando para aquela rosa que carregava e refletindo sobre a maneira como a entregaria . Caminhei mais alguns passos e parei sobre o viaduto da linha férrea que atravessava a nossa cidade e olhei para todos os lados e pensei na reação de Maria, do Renato, da Neide e de todos os amigos que estavam na festa ao me verem chegar com uma flor, uma rosa vermelha. Não, não queria ver a reação deles, mas estava eu ali, com a rosa na mão e precisava livrar-me dela. Pobre viaduto, foi cúmplice/testemunha do meu ato, recebeu a rosa que minha mãe colheu no jardim para que pudesse presentear Maria. Ainda lembro, joguei-a e a vi caindo caindo, caindo e estatelar-se no chão entre os trilhos dos trens e da minha inexperiência e da minha vergonha em dar uma rosa de presente à Maria, que estava de aniversário quando ainda tínhamos 12 para 13 anos. A festa foi maravilhosa mas presente à Maria não dei e cultivo uma culpa na minha consciência desde então …”
É Pedro, o que vale é a intenção e neste caso a tua intenção foi a melhor possível, pois sabemos da pressão que sofremos nesta idade e da falta de personalidade que temos para assumir uma situação delicada.
Flores, perfumes, celular, par de botas, uma rosa, não importa, o que vale é a intenção
8 Comentários
Você falou uma verdade: não temos personalidade suficiente nessa época da vida. Vamos muito pela cabeça dos outros e, com o passar do tempo, vemos que nem tudo era tão importante assim. Garanto que ela preferiu a presença dele mesmo sem presente…
Ai eu fiquei de olhos marejados… minha infância também não foi farta, e a adolescência, sem minha mãe, um pouco pior… mas eu aprendi a valorizar qualquer detalhe e a intenção!!
Beijos!!
Eu nunca tive muitos problemas na infância, sempre vivemos bem naquela época… Acho que era outra época, o Brasil parecia ir para frente.
Fiz a receita do outro post, ficou show e ainda me salvou do mau humor ![]()
Abraço
A gente cresce ouvindo essas coisas todas, não é? Presente são carros, casas, celulares, entre outras coisas mais. Então um dia você conhece alguém e esse alguém te diz que você é o melhor presente que ela já ganhou e você percebe que todas as coisas são apenas coisas e passa a pensar em estar presente e em coisas simples. Mas a gente leva tempo até descobrir essas pequenas coisas, não é mesmo? Grande abraço
Que belas palavras trocadas ainda mais por correspondência, muito bonito mesmo!
Obrigada por todo apoio ![]()
Bjos
Ly
Fiquei eu aqui com lágrimas nos olhos, sou emotiva, sabes bem disso…
Mas eu lembro que quando criança certa vez ganhei um sabonete de uma menina. Era cheiroso, mas nunca o usei. Lembro que a menina me disse para não abrir na frente das outras pessoas porque era tudo que ela poderia me dar, mas as pessoas não entenderiam. Se bem que eu acho que nem eu entendi naquela epoca. Bjs moço
MA – RA – VI – LHO – SO!!!


Minha infância foi bem assim! Nós morávamos num lugar bem pobre. Meus brinquedos eram inventados com a minha imaginção , com folhas, galhos de árvores. Posso contar nos dedos os brinquedos que ganhei… Na sala uma televisão velha que não pegava os canais direito, um som velho que não tocava nada, só o radinho de pilha funcionava bem… rs
Mesmo assim foi uma infância feliz, pé no chão, de subir em árvore, de brincar na rua, com as mães com a cadeira na porta… Tenho saudade daquela época, mesmo que em alguns dias não se tivesse nem o que comer…
Beijocas