Observando a vida
Que culpa eu tenho se eles deixam a janela aberta e da sacada do nosso apartamento consigo observar todos os movimentos que eles fazem? No edifício tem oito apartamentos de frente mas as cenas que vejo acontecem em quatro.
Na primeira janela a esteira ligada e o homem corre e corre e o tempo passa e ele corre e as vezes a toalha seca o suor do rosto sarado, apesar dos cabelos já brancos demonstrarem sua idade mais avançada. A esteira não pára.
Na outra vejo uma TV ligada e a criança caminha sobre as poltronas e pula e pula e come biscoitos recheados e come rufles da elma chips e espalha as batatas sobre o tapete e sobre a mesa de centro e percebo, num zoom da câmera digital, que ela manuseia com destresa um Hi fone.
Na terceira janela sempre vejo um casal, ou melhor, vejo as suas sombras por trás de uma cortina branca e uma iluminação de um abajour lilás no canto da sala. Eles gesticulam, conversam, se abraçam demoradamente, sentam, ela levanta ele sai da sala, saem os dois, voltam, sentam-se em poltronas diferentes, conversam, gesticulam, se aproximam, se abraçam, se beijam e saem da sala deixando a penumbra do abajour e a imaginação de quem os está a observar.
A quarta janela é a que mais me intriga. Só tem uma poltrona na sala, não tem estante e não tem tapete e não tem TV, só uma poltrona na qual uma moça senta exatamente às 9:02h/pm das segundas e quartas-feiras e, debaixo do lustre, lê o livro até às 9:59h/pm. O horário é fixo. Nunca a vi antes ou depois. Liga a luz, senta, abre e lê o livro. Fecha o livro, desliga a luz, sai do apartamento com o livro debaixo do braço, desce as escadas e sai rua acima até se perder no horizonte onde não mais a vejo.
Tem noites que não tem ninguém nos apartamentos, tem noites que tem em um ou dois, tem noites que o quorum é completo e tem noites que os compromissos me impedem de acompanhar esta novela do cotidiano.
Eu não tenho culpa que eles deixam as janelas abertas e da sacada do nosso apartamento eu consigo observar todos os movimentos, mas eu precisava contar para vocês.
7 Comentários
Observando a vida?? Aham…rs
Nunca sabemos quando estamos sendo observados.
Mas as construções atuais favorece o espiar…
Bjos
Paulo, sinto muito, mas acho que terei que te decepcionar.. Eu não gosto de Cachorro Grande! Talvez uma ou duas músicas, mas não sou nenhuma fã. Foi mal! heheheheh Beijos =)
Criei vergonha e vim até aqui conhecer o seu blog.
Olha, eu sempre tive pra mim que as pessoas gostam de observar e de serem observadas. Está aí a chatice do BBB que não me deixa mentir. aff
Vocês poetas/escritores precisam de alimento constante, é isso? Não???
Eu já tive esse hábito Paulo, mas ultimamente ando com o olhar preso a paisagem: o silêncio do vento, o barulho das folhas, as composições das nuvens. Estou nessa fase, será que passa? rs Bjs


Cuidado, eh Paulo, já viu o Janela Indiscreta?