terça-feira, 4 de agosto de 2009

O inverno é emocionante

Tem textos que nos trazem lembranças e nos levam a pensar e escrever sobre elas. Não vou fazer uma regressão tão profunda ao ponto de voltar para o meu ano de nascimento, como fez o Jânio, neste artigo dele,  mas volto para…

1966. Junho, julho, agosto, nem sei. Dias gelados. Os gramados, ao amanhecer, brancos de geada. O frio penetrando pelo corpo de quem se atrevia a sair à rua e caminhar nas estradas de chão batido. Ao longe via-se o vapor subindo da terra e misturar-se com a densa neblina. As crianças, nós, corríamos felizes e nem percebíamos o frio da temperatura a rachar os nossos lábios.

Eu estava de botas, uma calça jeans, um pouco curta e um casaco quadriculado que herdei do Alexandre, meu primo rico. Bem quentinho, ao contrário do Valdair que usava um moleton com uma palavra escrita em inglês que até hoje não consegui traduzir, uma bermuda feita de saco de farinha de trigo (usava-se muito na época) e os pés descalços, parecendo não sentir nada do que o ambiente lhe apresentava. Nem as mãos, nem os pés, nada.

A professora grita e reúne todos em fila indiana para que entrássemos na sala e fizéssemos o último ensaio da peça teatral que apresentaríamos à tarde para todos os alunos do colégio, e alguns pais, naquele palco improvisado, nas escadas externas de frente para o pátio que ficava lá em baixo.

Andréia era o frio, Renato o vento, Maria Cristine a sensação térmica, Valdair o povo sofrido e miserável que passava por dificuldades em mais aquela estação, Valmir a água congelada das poças, Jane as vitrines das lojas repletas de roupas e calçados quentes, Juarez o urso que ibernava e eu, com os cabelos negros transformados em brancos por uma meia lata de talco “Cashmeire bouquet” jogada sobre a minha cabeça pela professora, usando um longo casaco forrado emprestado pela Dona Iara e um par de pantufas da Dona Maria, representava um senhor grizalho, sizudo, carrancudo, experiente o inverno, propriamente dito, que dava conselhos a todos os que deles necessitavam.

As falas eram enormes, a interpretação da turma a contento, a platéia concentrada, prestativa e procurando um lugar no sol que se mostrava, fracamente, por entre as nuvens. O frio não parava, alguns colegas tremiam pela insegurança e responsabilidade da peça e pelo gelado vento que insistia em bater.

A peça acabou. Os colegas assistentes batem palmas estusiasticamente, não sei se pela “maravilha” da nossa interpretação ou se para aquecer as mãos geladas.

O sentimento do dever cumprido, da mensagem transmitida e da dor de cabeça que foi afetada pelos tapas dos colegas nos cabelos brancos de talco, agora já quase pretos.

O inverno é emocionante – este era o nome da peça – e é este o primeiro e mais qualificado inverno que me vem a memória toda vez que o junho, o julho, o agosto se faz presente em minha vida.

Categorias: Lembranças
Você pode acompanhar as resposta a este tópico através do feed RSS. Você pode deixar um comentário ou colocar um link diretamente do site.

4 Comentários

06 de agosto de 2009

Que lembrança agradável Paulo. Olha, não era inverno quando ganhei de presente (de grego) um personagem em uma peça teatral. Diga-se de passagem: eu não queria fazer a tal peça de forma alguma, mas a personagem tinha o mesmo nome que eu. No meu caso as palmas ouvidas dos colegas na platéia era o som do fim da tortura. rs


06 de agosto de 2009

Que legal isso Paulo! Bom partilhar de tuas lembranças :)
Quando me surge inverno na cabeça a primeira coisa que penso é nas férias de julho que passava na chácara do meu tio. Café com leite de manhã, andar a cavola e brincar nas árvores o dia inteiro com os primos e de noite em frente ao fogão a lenha chocolate quente com pipoca doce… Adorava isso!
Abraço


07 de agosto de 2009
Sônia

???? rs…rs…
Lembranças boas, né?
O inverno é gostoso. Eu gosto.
Muito bom ler seus textos Paulo.

Um abraço!


11 de agosto de 2009

Você me fez viajar por aqui, lembrei do tempo de moleque quando eu ainda morava nessa mesma casa onde moro hoje e a rua era de terra e a gente empinava papagaio sob os olhares atentos de vários senhores que naquela época eram avós preocupados com os netos. Grande abraço


Deixe seu comentário

Clicky Web Analytics