O choro de um velho solitário
E o velho chorava copiosamente, sentado no seu banquinho de madeira, quase acocorado no meio do pátio em que, no fundo via-se um casebre de madeira apodrecida cujas frestas se sobrepõe e de longe vê-se o interior dele, os dois cães, vira-latas, sentados bem próximo a ele olhando-o com aquele olhar triste de cachorro, parece que tentavam consolá-lo. O velho chorava e balbuciava palavras que eu não compreendia.
Sempre que caminhava ou corria, em busca da saúde perfeita, por aquela rua e o via, ali, sentado, conversando sozinho, conversando com os cachorros, conversando com suas verdades e lembranças que as vezes o faziam sorrir e as vezes o deixavam triste, fechado, ensimesmado a ponto de gritar, espantar os cães com murros no ar e maldizer todos que passavam na calçada, extendendo os impropérios até a 2ª ou 3ª geração dos que o ouvia.
Hoje foi diferente. O banquinho, o casebre, o pátio, os cães, tudo igual, só o velho estava diferente, resignado e choroso.
Parei e tentei um diálogo, mas ele não queria ou não conseguia conversar. Fiquei observando, ouvindo e em meio ao choro pude ouvir palavras como: filhos, onde estão? me abandonaram, mulher safada, cão do diabo, meu filho… Gritava e o choro aumentava. – Meu filho aparece, vem ver o pai…
Nada fazia sentido. Um velho sofrido, rugas marcando no rosto as dificuldades passadas, as roupas rasgadas denunciando necessidades, a garrafa de cachaça vazia, deitada ao lado indicando o estado do homem, a solidão do banquinho no meio do pátio e os cachorros vira-latas entristecidos.
O velho chorava e sentia a solidão dos solitários.
3 Comentários
Sempre acho que a solidão não aparece do nada, a gente a convida, não? Grande abraço
Sempre digo, é muito bom ter concorrentes(rs), pois, eles ajudam sempre em alguma coisa(rs).
beijitus


Vida vivida, vida real. Foi mais um caso da vida, que vemos todos os dias tornando-se banal…
Bjos, querido!