Em busca de menos vazio e menos solidão.
Era uma daquelas manhãs de domingo e a cidade ainda estava vazia. Caminhava lentamente pela avenida cujo leito negro estendia-se até onde os olhos alcançavam. Estava triste e pensativo. Algumas luzes ainda brilhavam nos postes que abriam seus braços aos céus, para dar pouso aos pássaros que neles descançavam.
Adolescentes circulavam em bando, falando alto, gargalhando e dobrando na próxima esquina. Um cão guardava o mendigo que dormia na calçada fria e molhada pelo sereno da madrugada.
O sol mostrava-se e ao longe os primeiros raios penetravam por entre os ipês  amarelos que circundavam a praça.
Gente caminhando, gente correndo, gente de bicicleta, gente sentada nos bancos da praça lendo, gente observando o movimento, gente parada em frente ao palco, implantado pela prefeitura para comícios e apresentações artísticas, ouvindo o discurso apocalíptico do orador com sua bíblia em punho:
“O fim dos tempos está próximo. A humanidade perdeu-se entre a ganância e a luxúria. Pecadores. Jesus descerá à terra em breve e castigará a todos. Arrependei-vos. Xô satanas…”
Mais adiante uma pequena fila formava-se na porta da padaria e nela misturavam-se crianças, adultos e aposentados comprando o primeiro aroma da manhã.
Caminhava, ainda, mas o domingo da cidade pequena e vazia se transformara. O movimento, agora, encaminhava-lhe em busca do silêncio dos solitários e, pesaroso, recolheu-se ao apartamento 310, no qual morava a três anos e onde a mala, o celular e o notebook estavam postos sobre o estofado bege listrado, juntamente com uma folha de papel que ainda exalava o perfume dela e no qual estava escrito:
“Adeus. Deixe as chaves na caixa de correspondência.”
Seco, direto, sem explicações, mas foi o que ele fez.
Pegou a mala e os demais pertences, deixou a chave e hoje vaga em busca de uma cidade cujo domingo não seja, assim, tão vazio e solitário.
10 Comentários
Menos vazio e menos solidão…acho que estamos todos em busca disso.
Boa noite Paulo!
Paulo,
que belo conto! Vc pintou o domingo com cores fortes, reais, próprias da vida que a gente leva.
Qto ao personagem, é cada um de nós em determinados dias. Parece que somos párias, qdo sofremos a dor de uma perda. Não pertencemos à vida, não há cidade que nos acolha.
Sorte é que o tempo é o senhor da razão. E sempre passa, né?
Beijocas
Sempre achei domingos vazios e solitários.
Mas sempre pensei que isso poderia ser só o reflexo de como eu me sinto.
Beijo!
Esse texto passa muita solidão, um vazio, daqueles que apertam o peito e angustia. bjos
Solidão não é estar só…… é estar vazio.
….
Lembrou-me um texto que escrevi dias atrás, onde até a mesa e as cadeiras conheciam a solidão tanto quanto eu. Ou algo assim. Sempre esqueço meus textos, não tem jeito. Abraços meus
Um conto que me fez caminhar, passar pelo Ipê, e sentir a tristeza e o vazio. E pensando nessa busca.
abraços
A busca que não nos cansa. A busca que nos motiva
Beijo Paula
Lunna:
Tá lá no Acqua é só acessar…
O vazio um dia acaba e com ele a solidão
Beijo Van
Captastes bem Lucia.
Nathália:
É o reflexo do sentimento de todos nós
Beijo
“Não pertencemos à vida, não ha cidade
que nos acolha”
Está ai uma frase que poderia fazer parte do texto
Beijo Loba
falar de vazio me lembra: minha mae que me prendia,quando crianca,das surras dentro de casa etc. aos 15 anos despreparado pro mundo me perdi na bebida e drogas. o vazio continuava mesmo quando evangelico(via abusos de poder la dentro e injustica)por fim casei(fui o tempo todo enganado e nao sabia.fui roubado tambem) hoje olho pra traz e choro nao ter casado com delma.por isso o vazio persiste,ta casado comigo.felicidade foi embora e a saldade no meu peito ainda tambem mora.tchau(desabafei! tava precisando.


Mas se voce for pensar bem, existe muita vida e muitas pessoas nesse domingo, talvez só não sejam a pessoa que ele procura!
;*