Artigos da categoria ‘verdades ou mentiras’
Operário na construção
Garimpando palavras nas minhas andanças, tropeço numa cartomante que diz para continuar construindo.
Eu??? Construindo???
Minhas obras são cimentadas com porções de inspiração misturadas a quatro mãos com a solidão dos poetas e pequenas partes da cal virgem de ilusões. Mãos calejadas desenham as palavras silenciosas em papel manteiga e calculam o custo da construção, do macacão de jeans até o gramado verde circundado por extensas calçadas que serão frequentadas por leitores vorazes em busca de companhia.
As obras são cansativas e um pouco de suor de todos que participam escorre nas páginas branquinhas do livro ainda não lido ou é absorvido pelas páginas amareladas e marcadas com a impressão digital de muitos que passaram e repassaram os textos ali escritos.
O dia acaba. A construção invade a madrugada e a obra vai tomando forma, palavras sobre palavras moldam a parede interna, mas portas e janelas são deixadas para que se tenha saídas estratégicas.
Os braços do operário acusam cansaço, o suor impregnado na pele e absorvido pelos panos das roupas que veste imploram por água e o banho lava tudo corpo, alma e sentimentos.
Os dias se sucedem, acaba-se uma obra e outra já está ali, nos esperando para ser arquitetada, planificada, transportada para os papéis ou para a virtualidade.
Parece que as cartomantes sempre tem razão…
A dieta do milho
Como se come e se bebe nesta época do ano. Também, tudo é motivo para comemorar e bebemorar, são os happy auer’s, as festas para entrega dos presentes de amigo oculto (haja pizza), as reunião e ceias em família ou com amigos no Natal e o pior, ou será o melhor, ainda tem o fim de ano.
E foi na noite de natal, entre uma cerveja e outras, que elaboramos esta dieta, com palpites de todos os presentes, teorias e teorias sobre este alimento que pode ser a salvação de muitos gordinhos ou dos que sempre setão preocupados com a sua saúde ou a sua silhueta.
Apresento-vos a salvação da lavoura, o alimento que se não faz emagrecer, pelo menos não se incorpora ao corpo nosso e nem aumenta as gordurinhas nossas tão, por vezes, salientes:
O Milho!
Sim, o milho.
E não tem receita nenhuma, não tem dosagem mínima ou máxima. É só observar o caminho que o milho toma:
Já observaram o que acontece com o milho após a sua ingestão? No dia seguinte? Ou quando se vai ao banheiro e se expele o que os aparelhos/órgãos internos não aproveitam? Sim. Exatamente. Vai tudo vaso abaixo e todos aqueles grãozinho amarelos que comemos vão se perdendo entre as águas do esgoto. Não sobra nada.
Mas vão com calma, ou adotem a teoria do SDD (se der deu) que eu aprendi numa palestra do Eduardo Tevah que assisti dia desses.
Isto são tudo Teorias de uma Noite de Natal, mas bem que poderiam ser a solução de todos estes nossos problemas.
A morte do sr. Apólito
A história é trágica, mas como toda história trágica, esta também tem o seu lado cômico.
Na cidade tinham duas funerárias, pelo menos eram duas as mais famosas e de maior concorrência e uma delas era a de maior movimento.
Todos os dias, se não eram dois, pelo menos um velório/enterro acontecia. Caixão, velas, castiçais, flores, coroas de flores, pessoas chorando, conversando, tristes, familiares sentados em fila a espera dos pêsames e dois bancos grandes em frente a funerária impedindo o ir e vir dos pedestres na calçada. A polícia organizando o trânsito em frente, na avenida. O sr. Apólito, proprietário da funerária, sempre ali, prestando o seu bom serviço, água gelada, mais uma cadeira aqui, um ombro para chorar acolá… É ele quem preparava os mortos, punha-lhes o terno e o sapato “de morrer”, acomodava-os dentro do caixão, fazia o comunicado da morte através das emissoras de rádio, pregava nos postes da cidade o “aviso de falecimento”… Encerrado o velório colocava, auxiliado por seu filho Marcus, o caixão em sua Caravan preta e dirigia pacientemente até os cemitérios para o enterro.

E eis que, naquele dia fatídigo, o movimento foi todo transferido para a funerária de nº 2 e a do sr. Apólito permaneceu fechada, sem velas, sem flores, sem nada.
Vi num aviso preso ao poste: Â Comunicamos o falecimento do sr. Apólito… Está explicado. O dono da funerária morreu, vítima de um efizema pulmonar e os filhos o velaram na concorrência, exigindo todos os serviços a que tinham direito e que por anos e anos o seu pai querido prestara.
Não tinha muita gente no velório, o sr. Apólito era homem de poucos amigos, mesmo porque poucos queriam ser amigos do homem da funerária.
Pelas conversas no velório, os filhos não seguirão o ofício do pai e a funerária já está a venda ou o prédio será alugado para alguma loja de departamentos…
Apagão
E como a maioria, também sinto os efeitos do apagão. Deletei Apaguei os links das tv’s porque notícias velhas eu leio no jornal das manhãs e as novas/instantâneas eu vejo no twitter.
Algumas fotos da última viagem ao nordeste e aquelas do carnaval de 2003, alguém apagou.
O rascunho daquela poesia que escrevi depois daquela noite infinda, também foi apagada.

Não tenho uma memória privilegiada mas algumas ideias que armazenei nos confins do cerébro se apagaram. Um fax que recebi daqueles créditos de quando vendi as ações da Petrobrás, se apagou.
As esperanças, os sonhos, a realidade, as palavras, os textos e até os sentimentos se apagaram e percebo que a vida é efêmera e simples raios e relâmpagos de tempestades imaginárias arrasam com edificaçoes abstratas que construimos durante nossa estada e passagem neste mundo dominado por humanos que não se importam com os seus semelhantes e nem com a dor, com o amor, com o corpo ou com a alma.
Apague-se o “apagão”.




A nossa Copa do Mundo.
Na 6ª série do fundamental tá bom, sei que isto foi no século passado eu frequentava o turno da tarde. As aulas iniciavam-se às 13:30h, mas às 12:30h, logo após o almoço de feijão, arroz, aipim, carne assada e salada, que era repartido metodicamente pela nossa mãe entre ela, o pai e os seis filhos, já estávamos na escola, a correr atrás da bola, lá na cancha de futsal com aquele piso áspero feito de lajes, a céu aberto com chuva ou com o sol do meio dia a pique.
O Babá, o Flávio, o Paulo, o Lauri, o Elói, o Juarez, o Heitor e mais alguns cujos nomes se perderam na memória do tempo, poderia mentir dizer que eles pediram para não serem citados formavam os dois times, as vezes de quatro, as vezes de cinco jogadores e por 45 minutos jogávamos a nossa Copa do Mundo.
Eram jogadas maravilhosas, gols de seleção brasileira, tabelinhas, defesas a la “Manga“.
Aos poucos até as gurias começaram a chegar mais cedo para assistir o nosso desempenho “futebolístico”. Primeiro foi a Denise, depois a Elaine, a Célia, a Márcia, a Eloísa e a nossa torcida aumentava dia após dia. Às 13:15h o primeiro sinal tocava e o jogo 1 a 0 , 2 a 1 , 0 a 0 , não importava, encerrava-se. Pegávamos nossos livros e corríamos para a sala de aula, onde o professor Francisco, num dia, Jacinto, Iva, Marilu… em outros, aguardava-nos e, invariavelmente, nos repreendia pelo suor, pela sujeira em nossos uniformes e pela agitação que nunca parava.
Já estávamos no segundo semestre e, como em todos os campeonatos, a nossa Copa do Mundo chegou ao final. Não porque não encontravamos mais as bolas que chutávamos sobre a alta tela que circundava a cancha e elas insistiam em se esconder na plantação de milhos, nem porque a torcida vaiava um ou outro colega jogador, não porque os professores fizeram um abaixo assinado exigindo o fim dos jogos, nem porque o “Lauri”, dono da bola que era o maior “perna de pau” da equipe, exigia a todo momento que se lhe passasse a bola, mas a copa acabou porque o Flávio e o Babá dividiram com muita força uma bola fazendo com que o Babá caísse, batesse a cabeça na laje e fosse acometido de uma congestão intestinal que o levou a convulsões, reviramento dos olhos, endurecimento dos braços e pernas e a revelação de um grande corredor, o Elói que voou arquibancada acima atrás dos professores para pedir ajuda.
O susto foi grande. O socorro veio com o professor Ludovico que com seu fusca branco, prontamente, levou nosso colega ao hospital que ficava a uma quadra do colégio.
AÂ partir daquele dia, naquele horário impróprio, não mais praticamos o nosso jogo e posso afirmar com toda convicção que em função disto o Brasil e o mundo deixou de conhecer alguns craques que poderiam ter surgido daquele campinho de peladas.
O Babá se recuperou e tivemos que encontrar outros locais e horários para continuar com as nossas jogadas, continuar com a nossa “Copa do Mundo“…