Artigos da categoria ‘Textos incríveis’

7 de dezembro de 2009

O poder da pontuação

Recebi, da Patrícia, este texto, por e-mail. Muitos já o conhecem, poucos, talvez, não, mas mesmo assim resolvi colocá-lo no blog para nossa reflexão.

Sobre a Vírgula



Vírgula pode ser uma pausa… ou não.
Não, espere.
Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.


A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.


A vírgula pode condenar ou salvar..
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!


Uma vírgula muda tudo.

Faça a sua escolha:

SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.



* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER…

Se o homem soubesse o valor que tem a mulher, andaria de quatro a sua procura.


* Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM…

Se o homem soubesse o valor que tem, a mulher andaria de quatro a sua procura.

Se podemos dizer isto da vírgula, o que não poderemos dizer do ponto final.


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14 de outubro de 2008

Quando a relação é boa não importam as palavras usadas

Finalmente desvenciliei-me dos meus pudores e resolvi publicar um post erótico que fala sobre erotismo, relações entre um sujeito/substantivo masculino e um artigo definido, feminino, singular, conforme poderão verificar nesta redação abaixo, feita por uma aluna do Curso de letras da Universidade Federal de Pernambuco, que venceu um concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa, e que, gentilmente, foi-me enviada via e-mail por uma amiga.

Redação:

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.

Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.

O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.

Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.

Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.

Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.

Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

Para bons entendedores uma boa gramática basta.

27 de setembro de 2008

A parábola dos dois remos

Gosto muito de falar em sonhos, existe muita gente que gosta de sonhos, mas muitos se queixam de não conseguirem alcançar os seus, por isto relato abaixo um texto que recebi por e-mail e que tenta ajudar neste dilema:

DOIS REMOS

Um viajante ia caminhando às margens de um grande rio. Seu objetivo era chegar à outra margem. Suspirou profundamente enquanto tentava fixar o olhar no horizonte. A voz de um homem de idade, um barqueiro, quebrou o silêncio, oferecendo-se para transportá-lo. O pequeno barco envelhecido era provido de dois remos de carvalho. Logo os seus olhos perceberam o que pareciam ser letras em cada remo. Ao colocar os pés dentro do barco o viajante observou que eram duas palavras. Num dos remos estava escrito Acreditar e no outro Agir.

Curioso, o viajante perguntou a razão daquelas palavras nos remos. O barqueiro então pegou o remo chamado Acreditar e começou a remar. O barco começou a dar voltas sem sair do lugar em que estava. Em seguida, pegou o remo chamado Agir e começou a remar, novamente o barco girou em sentido oposto sem ir adiante.

Finalmente o velho barqueiro, segurando os dois remos, remou com eles simultaneamente e o barco, então, impulsionado por ambos os lados, navegou através das águas chegando ao outro lado do rio. O barqueiro então disse ao viajante:

- Este porto se chama Autoconfiança. É preciso Acreditar e também Agir para que possamos alcançá-lo.

A conclusão e os comentários são de vocês.

7 de setembro de 2008

Vivemos na velocidade sexual da luz

Sou assinante do jornal Correio do Povo, um dos jornais mais antigos deste Brasil,  gosto muito de ler as crônicas do Juremir Machado da Silva-escritor, jornalista e professor universitário- e com a sua autorização transcrevo aqui um artigo que eu li relacionado ao post de 5/9 que escrevi aqui. O texto do Juremir é este:

CHOQUES CULTURAIS

Depois que o homem inventou o prendedor de roupas, num salto tecnológico sem precedentes, não parou mais de transformar o natural em artificial. Samuel Huntington afirma que há um choque de civilizações opondo Oriente e Ocidente, islamismo e cristianismo, razão e fé. Pode ser. Michel Houellebecq fala em mutações – alterações radicais de comportamentos nas civilizações. Tudo muda. Uma prova disso estaria nas formas de aproximação, casamento, acasalamento e separação dos seres humanos. Antigamente, em tempos imemoriais, havia o namoro, o noivado, o casamento, o sexo, a procriação, o adultério e a separação pela morte. Depois, num desses vertiginosos pulos civilizacionais, suprimiu-se o noivado. Foram necessários alguns séculos até se conseguir eliminar essa fase aborrecida que podia durar de três meses a 30 anos sem que se tivesse mais direitos e liberdades do que durante o namoro, mas já com um ar de casamento antigo.
Os jovens rebeldes de maio de 1968 tentaram subverter totalmente a ordem das coisas, eliminando o adultério pela introdução do amor livre e antecipando o sexo para antes do casamento. Uma das correntes mais radicais de maio defendeu a possibilidade da prática do sexo antes, depois e até durante o casamento. Houve também quem tentasse simplesmente suprimir o matrimônio. Tempo perdido. Ele reapareceu sob a forma de concubinato estável. O casamento mudou radicalmente nas últimas décadas. Nem vou falar do fato de que, nos primórdios, o casamento previa a união de indivíduos de sexos diferentes, o que era bastante restritivo, embora anatomicamente bem encaixado. Nada, claro, que a tecnologia já não tenha resolvido. O progresso continua.
Assim como o noivado, um vestígio ainda encontrado em algumas cidades sem Internet nem telenovela, o namoro também está em extinção. As novas gerações praticam o ‘ficar’. É tudo mais prático. Antes existia aquela conversa sobre família. Agora nem precisa anotar o endereço. Antes era preciso ter filho. Agora basta um cachorro. Antes, ‘ficar’ significava algo estável. Agora quer dizer que não foi necessário permanecer. Uma união estável é aquela que ainda não terminou. O dinamismo exige raízes flutuantes. Antes, a questão era sobre a possibilidade de fazer sexo antes do casamento. Agora é sobre a possibilidade de fazer sexo antes de jantar.
Vivemos numa época da aceleração total. Passa-se do ‘ficar’ ao casamento e deste ao divórcio no mesmo tempo que a mídia leva para descobrir mais um político corrupto no Brasil. Tempo é emoção. Ninguém quer ficar parado no tempo. Há alguns anos, quando a revolução comportamental parecia uma coisa futurista e de louco, embora hoje isso se apresente como uma bobagem do tempo da vovó, um homem convidava uma mulher para jantar e depois a levava (ou era levado) para a cama. Era um escândalo. Com freqüência, dava certo. Só que era tudo muito lento. Havia a etapa do restaurante, o vinho, no caso dos mais sofisticados, a sobremesa, as preliminares, etc. Era como o VT de uma final de campeonato sem a eliminação do tempo de bola parada. Surgiu um novo salto cultural. Agora, em vez de levar para jantar e depois para a cama, leva-se para a cama e, se der muita fome, leva-se depois para jantar. Faz sentido. É uma questão de prioridades. A vida não pára. Vivemos na velocidade sexual da luz.

O título deste artigo tirei da última frase do texto aqui transcrito, que achei bárbaro. Agradeço ao Juremir por autorizar a reprodução e deixo o seu e-mail para quem quiser contactar:  juremir[arroba]correiodopovo.com.br

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