Artigos da categoria ‘Pequenos contos’

14 de agosto de 2010

Sexta-feira 13 entre marés

Agora que a sexta-feira 13 já passou neste agosto frio e chuvoso e que todos os temores já se foram, compartilho com vocês o texto que escrevi aqui no blog Entre Marés. Espero que visitem…

21 de julho de 2010

Aqueles olhos verdes…

Toda vez que ela olhava para aquela fotografia no porta-retratos que estava sobre a mesa sentia uma dor no peito que lhe trazia uma estranha sensação.

Quatro pessoas: ela, a amiga outra amiga e o Carlos, ao fundo, em segundo plano, uma imagem de alguém desconhecido mas que direcionava os seus olhos  para ela e mesmo na estática da fotografia, parecia que a analisava dos pés a cabeça, por dentro e por fora, de cima a baixo.

Outro dia, caminhando pelo calçadão da Bonifácio, avistou alguém que seguiu e quase perseguiu. Quando alcançou-o, tocou em seu braço e a decepção foi omérica, pois não era aquele da fotografia, era alguém mais desconhecido ainda.

Na terça-feira, chegando do trabalho, abriu a porta e lá estava ele, olhando para ela no segundo plano da fotografia, acompanhado da amiga, da outra amiga e do Carlos. Pegou o porta-retratos, enrolou numa folha de jornal, amarrou com um barbante e colocou no fundo da gaveta da cômoda, atrás de suas camisetas e pijamas.

Quarta-feira ela não voltou para casa, mas na quinta, assim que chegou, foi direto ao quarto, retirou o objeto da gaveta, rasgou o papel, colocou cuidadosamente na estante, sentou-se no sofá e passou a observar a fotografia,  tentava lembrar-se de algum detalhe no rosto, cabelos, os olhos verdes, talvez os lábios, sei lá. Nada. Nenhuma pista.

Esta estranha mania de imprimir fotografias tiradas pela câmera digital Nikon que comprara nos EUA ainda lhe traria aborrecimentos, pensou e foi pensando nisto que teve a idéia de rever algumas outras fotografias que estavam armazenadas no álbum a procura de evidências (êta termo policial). Coincidência, ou não, em algumas fotografias tiradas em locais distintos, em dias diferentes, com pessoas quase nunca repetidas, aparecia o homem daquela fotografia que ela colocara no porta-retratos em que estavam ela, a amiga, outra amiga e o Carlos. Em todas, cinco ou seis, ele aparecia discretamente, com seus cabelos compridos, seus olhos verdes endereçados, tal flechas a transpassar corações saídas do arco de cupidos, a ela.

Estranha coincidência. Seu peito agora parecia querer explodir  e aquela sensação estranha deixava-a transtornada. Jogou o álbum num canto, tentou fugir do olhar dos olhos verdes, correu da sala para o quarto, retornou e agora sentia-se observada por pares de olhos que acotovelavam-se nas paredes brancas, rodou em seus próprios pés, tropeçou na mesa de centro, caiu, bateu a cabeça, desmaiou e só acordou no outro dia, na cama do hospital, sob os cuidados e sob o olhar atento do Dr. Daniel, que, coincidentemente, era dono dos cabelos longos, dos olhos verdes que apareciam nas fotografias da Débora, inclusive aquela tirada com a amiga, a outra amiga e o Carlos…

Esta história precisa de continuação…

4 de julho de 2010

Por quem os telefones tocam

O toque insistente do telefone quase a irritou. Olhou pro relógio só para confirmar o atraso. O último retoque do batom, a escova no cabelo, os sapatos pretos que a deixavam 10 cm mais alta e a bolsa combinando com eles.

Pronto. A chave do carro, abrir e fechar a porta e encarar o compromisso que nem sempre lhe dava prazer.

O elevador já chegou e ao entrar ela ouve, novamente, o telefone do seu apartamento, mas o som desaparece a medida que o elevador desce pelo vazio que separa os andares.

Na garagem o som do alarme libera todos os bloqueios que ainda existiam e lá vai ela, acelerando o carro, em busca de mais um dos capítulos de sua história.

Quinze minutos era o tempo que levava até o flat onde ele, com certeza, já a esperava. Ele era exigente, mas muito generoso. O carro, o apartamento, as jóias, as roupas, tudo era dela, e tudo veio dele.

Parece que algo estava errado. Ela não conseguia concentrar-se, nem nos olhos verdes dele, nas suas costumeiras palavras ao pé do ouvido, nem em seus beijos, nem em seus abraços, nem no vinho que degustaram juntos.

O tempo passou rápido e ele, com sua costumeira pressa, se foi.

A volta ao apartamento sempre a deixava melancólica e o pequeno trajeto tornava-se uma eternidade. O carro na garagem, o elevador subindo, 13° andar, a chave na porta, a luz do abajour ligada, um copo d’água, o corpo na poltrona e as pernas na mesa de centro, o botão da secretária eletrônica e o recado que não foi registrado.

Agora o telefone não toca!

O remorso por não ter atendido, atinge-a de tal forma que maldiz o seu atraso anterior, a pressa ao compromisso, o elevador que contribui para o seu afastamento, as horas passadas no flat e a demora em retornar.

Já era madrugada e o som dos carros na rua em frente não mais se ouvia, nem as conversas e risadas do barzinho da esquina, nem o cantar das corujas, nem o toque insistente do telefone que ela ansiosamente aguardava.

Não seria desta vez que ela descobriria por quem e porque o telefone tocou.

14 de junho de 2010

Enigmas II

Leia a primeira parte deste conto aqui

Quando Samanta acordou, assustou-se. Estava deitada sobre uma cama de casal, coberta com um fino lençol de cetim feito na China, travesseiros de pena, almofadas vermelhas ao lado e um pequeno abajur, irradiando uma fraca luz que deixava o quarto na penumbra, sobre o criado mudo.

Samanta levantou-se e sentiu uma leve tontura, mas logo se recompôs, foi até a janela, mexeu na cortina e alguns raios de sol penetraram no quarto mesmo sem serem convidados. Percebeu que era dia e voltou seu olhar circundando o quarto estranho no qual se encontrava. Aos poucos ela conseguiu lembrar os fatos até o desmaio no gramado em frente a casa. Olhou-se no espelho e preferiu não ter feito isto, estava bem fora dos padrões que para si escolhera. Lembrou-se que um homem a carregara para o quarto, abriu a porta e, pé ante pé, percorreu o corredor até a escada que terminava no andar térreo. Espiou, tentou escutar algo, olhou para todos os lados e, degrau por degrau, desceu a escada construida em curvas com taboões de madeira-de-lei, envernizados.

Lá em baixo não tinha nada. Não tinha móveis, não tinha cortinas nas janelas, não tinha paredes dividindo e demarcando sala, cozinha. Não tinha ninguém. O desespero apoderou-se de Samanta que objetiva a maçaneta e tenta abrir a porta. Não há chaves e a porta não abre. Samanta corre à janela, força-a, abre-a e pula para fora, fugindo e caindo sobre o gramado, só então descobre que a casa está fincada no alto da duna e lá em baixo o abismo a espera. Samanta rola e rola e o som do celular, realmente, a acorda.

Outra mensagem? Ela pensa.

Atordoada, percebe a profundidade do sonho e fica feliz por acordar deste pesadelo.

Os fortes ventos não existiram. As ondas serenas daquela praia paradisíaca nunca deixaram o leito do mar. Tsunami só de palavras que se transformam em frases e versos que invadem os textos daquele livro rabiscado.

Samanta sorri aliviada e retoma sua vida normal, um banho, um cheiro, um vestido, uma havaianas, a bolsa a tiracolo, uma caminhada no calçadão e o celular desligado, para garantir…

7 de junho de 2010

O Bar do Freud

Não que a mesa ou o balcão do bar seja um substituto para uma boa terapia, mas nestes últimos dias, Antônio, direcionara todas as suas frustrações, suas dúvidas, suas buscas, para aquele recinto que contribuia para o fim do stress diário, para o clareamento das ideias e para a solução de alguns problemas que se perpetuavam.

Chegava cedo, logo após o expediente, o bar ainda vazio, a garçonete preparando as últimas mesas, alguns copos ainda recebendo o polimento indispensável, o som do sax do Louis Angstrom invadindo o ambiente através das reliquias de LP’s colecionadas  e as lâmpadas a meia luz deixavam o bar numa penumbra aconchegante.

No balcão o segundo copo de uísque sem gelo já fazia companhia para o primeiro e a solidão de Antônio se estendia até onde iam seus pensamentos.

Aos poucos os frequentadores assíduos chegavam, alguns com lugares marcados em suas mesas costumeiras, outros sentando-se a direita ou a esquerda de Antônio que permanecia, ali, sentado, no balcão e entre um gole e outro repassava toda sua história, infância, adolescência e por vezes concluia que tudo acontecia rápido demais.

Mais um uísque. O sorriso largo da morena sentada no fim do balcão acompanhada por um senhor que fumava e soltava fumaça do seu charuto cubano, a gargalhada do Euclides que já passara da conta em suas investidas etílicas, a música, o burburinho dos que conseguiam dialogar, já perturbavam Antônio que absorto em seus devaneios não conseguia concentrar-se nem resolver ou encaminhar solução para seus problemas existenciais.

Pagar a conta, vestir o sobretudo, caminhar até a porta e ao carro, dirigir sem rumo e aguardar o anoitecer do outro dia para novamente chegar cedo ao bar, sentar no “divã” e interpretar os sinais que são para lá trazidos.

Nem Freud teria explicação…

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