Artigos da categoria ‘Pequenos contos’
As lembranças que nos perturbam
Sentado sobre um tronco, debaixo da árvore, à sombra, seu Tonho enrolava o palheiro com o fumo de sua própria produção, acendia-o com uma caixa de fósforos “Paraná”, tragava e soltava uma baforada de fumaça com aquele cheiro horrível para quem não gosta e aquele cheiro delicioso para quem gota de fumar, dizendo:
- Vai chover, vai chover, vai chover…
O sol já diminuido suas forças lá no horizonte e o seu Tonho ali, sentado, fumando e pensando até que chega o seu Juca e o seu João para aquela conversa de fim de dia. Uma palavra, um discurso inflamado do seu João e a mesma frase do seu Tonho:
- Vai chover, vai chover, vai chover…
Ao longe ouve-se o grito de uma mulher:
- Vem pra casa Tonho, já está anoitecendo…
Mais algumas palavras e seu Juca e seu João se despedem. Seu Tonho fica mais um pouco, sentado no tronco, fumando palheiro e olhando o horizonte a procura de algo que um dia perdeu. Seus pensamentos saudosistas são interrompidos pelo alerta da mulher que insiste em seu retorno à casa. Ele olha mais uma vez para longe, por sobre a plantação de fumo de um lado e os imponentes girassóis de outro e quase rola uma lágrima no seu rosto sofrido e já meio maltratado pelo tempo. Pela primeira vez o cão late para, na minha interpretação, consolá-lo já que era cúmplice e assistente do fato acontecido.
Seu Tonho volta à casa e a xícara de café preto já meio frio jaz sobre a mesa ao lado do pão de milho caseiro e do queijo branco colonial. Ouve uns resmungos da Amélia, que está sentada à mesa com um lenço na cabeça e um avental para evitar que os respingos de geléia de morango que estava preparando sujassem seu vestido, alimenta-se troca algumas palavras, ajuda a recolher a louça e vai até a sacada, senta-se na cadeira de balanço e seu olhar perde-se, novamente, no horizonte. Todas aquelas lembranças retornam à mente, lembranças que pensara adormecidas nos confins do seu cérebro, mas que afloraram tão lucidamente quando percebeu a presença da sobrinha do vizinho, vinte anos mais nova, cujos traços e personalidade e cabelos castanhos e olhos verdes e o sorriso largo, lembravam tão docemente da sua “Leonor”.
Tonho coloca os óculos, pega o livro que está lendo ( Jardim dos Girassóis de Lygia Barbiere Amaral), olha para o cão que lhe faz companhia e se joga nas páginas do livro, sem antes proferir sua habitual frase:
- Vai chover, vai chover, vai chover…
Porque ninguém quer viajar nos vagões vazios?
Os trens partem nos trilhos paralelos e há poucos vagões vagos.
Parece que todos estão superlotados de pessoas loucas para chegar ao seus destinos.
Pessoas, loucas, destinos.
Tudo parece confundir-se e a ordem dos vagões respeita o alfabeto ou as necessidades, ou os sentimentos, ou a fragilidade, ou a importância de cada um.
Almas vagam no primeiro vagão a procura de suas gêmeas o que é dificultado pela alta velocidade do trem que voa e confunde os pensamentos delas. Apaixonados são encontrados no segundo vagão que miram o horizonte com os olhos de quem mira um prato de tiro ao alvo.
Há vagões vagos e neles ninguém quer viajar.
No terceiro vagão, totalmente lotado, estão os narcisistas que pensam que nós não sabemos quem eles são. E há os curiosos, os desatentos, os inconsequentes, os presunçosos, os vingativos , os lerdos, os corruptos, os inescrupulosos.
O trem segue sua trajetória e de estação em estação renova seus passageiros que descem e sobem por suas escadas minúsculas, adentram a porta em busca de bancos, de diálogos, de amizades, de reconhecimentos, de glória, de prazeres, de sucesso ou de prestigio e por vezes nada encontram, viajam ensimesmados num cantinho que se lhes restou, com o rosto enfiado no jornal de ontem que alguém por ali esqueceu.
O trem anda e anda e os passageiros se renovam. Já não os reconheco mais. E les se misturam no primeiro e no segundo e no terceiro vagão, mas e por que nos vagões vagos ninguém quer viajar?
Última parada.
O maquinista já acionou os freios e o trem, suavemente, desliza por sobre os trilhos e vai parando, parando, parando…
Todos descem vagando para o leste, norte e sul deixando pra trás as lembranças da viagem: alguns pensamentos inconsequentes, as idéias trocadas com um desconhecido, o olhar discreto disparado em direção àquela morena, os rastros, os cheiros e odores como daquela moça de vestido vermelho cujo perfume suave nos fará lembrar dela por muito e muito tempo, a bela paisagem que ficará em nossa memória.
O trem de nº 1177 parte em direção a central e agora, por motivos óbvios, todos os vagões estão vazios, mas isto não responde a minha pergunta:
Porque ninguém quer viajar naqueles vagões vagos?
Um fim para um começo diferente
Um tapete de flores amarelas se forma sobre o asfalto quente da rua. Os carros passam em disparada e as flores pulam como que a fugir dos pneus que as maltratam. A visão é muito bela, o amarelo contrastando com o cinza e os raios e trovões salpicando o céu que parece que vai desabar. Chove forte e a natureza fica mais bela quando o granizo cai lá do alto. Correr para proteger-se das pedras, dos pingos grossos, do vento que tudo acompanha, é preciso. As pedras se acumulam na sarjeta, nas calçadas, sobre os carros, nos gramados, mas logo param de cair e só a chuva continua a molhar o vulto que passeia para lavar seu corpo e sua alma. As flores acompanham a água que viaja rua abaixo e leva consigo todo tapete cinza amarelado. O céu se modifica e logo a lua aparece e ilumina a escuridão que até então predominava.
Tudo é tão rápido.
Assim como na realidade ou na virtualidade, a natureza não tem mais tempo para viver passo a passo as suas estações, misturamos frios e calores e temperaturas amenas num mesmo sentir e confundimos e somos confundidos até que raios e trovões e tempestades e sonhos e pesadelos nos coloquem de volta aos trilhos.
O trem, sem maquinista, vai em alta velocidade e os passageiros, tranquilos, lêem revistas, jornais e até o último livro de Saramago. As linhas paralelas levam-nos ao infinito ou até onde sejamos barrados ou até que o trem bata e os corpos voem uns sobre os outros e não sobre mais nenhuma página a folhear nestes livros de ficção baseados em fatos reais.
Os livros relatam, o sangue escorre, os corpos exalam e o trem descarrilhado retoma seu caminho ao natural…
O choro de um velho solitário
E o velho chorava copiosamente, sentado no seu banquinho de madeira, quase acocorado no meio do pátio em que, no fundo via-se um casebre de madeira apodrecida cujas frestas se sobrepõe e de longe vê-se o interior dele, os dois cães, vira-latas, sentados bem próximo a ele olhando-o com aquele olhar triste de cachorro, parece que tentavam consolá-lo. O velho chorava e balbuciava palavras que eu não compreendia.
Sempre que caminhava ou corria, em busca da saúde perfeita, por aquela rua e o via, ali, sentado, conversando sozinho, conversando com os cachorros, conversando com suas verdades e lembranças que as vezes o faziam sorrir e as vezes o deixavam triste, fechado, ensimesmado a ponto de gritar, espantar os cães com murros no ar e maldizer todos que passavam na calçada, extendendo os impropérios até a 2ª ou 3ª geração dos que o ouvia.
Hoje foi diferente. O banquinho, o casebre, o pátio, os cães, tudo igual, só o velho estava diferente, resignado e choroso.
Parei e tentei um diálogo, mas ele não queria ou não conseguia conversar. Fiquei observando, ouvindo e em meio ao choro pude ouvir palavras como: filhos, onde estão? me abandonaram, mulher safada, cão do diabo, meu filho… Gritava e o choro aumentava. – Meu filho aparece, vem ver o pai…
Nada fazia sentido. Um velho sofrido, rugas marcando no rosto as dificuldades passadas, as roupas rasgadas denunciando necessidades, a garrafa de cachaça vazia, deitada ao lado indicando o estado do homem, a solidão do banquinho no meio do pátio e os cachorros vira-latas entristecidos.
O velho chorava e sentia a solidão dos solitários.



A inveja mata, ou acaba com o que está certo
Recem casado, Heitor ainda vivia sob os efeitos da “lua de mel”. Refletia e pensava e se beliscava para ver se estava acordado, para ver se não era apenas um sonho. E não era.
Luísa dissera o sim perante o padre, assinara os papéis diante do juiz e prometera cumplicidade com o Heitor “até que a morte nos separe”.
A viagem ao nordeste foi maravilhosa, os pontos turísticos visitados, a culinária, o sol, o mar e, principalmente, o hotel.
Heitor amava Luísa e Luísa amava Heitor…
Era um química invejada (inveja boa) pelos amigos e, na volta, as visitas eram constantes. Vieram o Lucas, o Renato, a Eloísa, o Fred, a Lúcia, o Carlos e até o Fernando e foi o Fernando, amigo desde a infância, que trouxe a “bomba”
- Estupraram a minha irmã!!!
Que notícia. Luísa ficou chocada, o Heitor nem tanto, pois conhecia a Ivete a tempos e sabia dos seus hábitos, amigos, lugares que frequentava, festas que fazia e ainda lembrava do desespero do Fernando e dos seus pais quando ela desapareceu por dez dias em busca de aventuras que “fizessem a sua cabeça” e que por fim ela ligou para o celular do Heitor para que a buscasse lá em Santa Catarina, na praia do Rosa. Até hoje esta “amizade” entre os dois não fora explicada pelo Heitor. (nem a Luísa sabia de nada)
- Está hospitalizada, machucada, sofrendo muito e a polícia já tem alguns suspeitos.
Heitor estranhou Fernando desde que chegara, estava com o semblante fechado, não sorria e parecia que tinha algo a dizer mas não dizia, até que:
- Os suspeitos são cinco: Fulano, Beltrano… e tu Heitor. Assim, direto, sem delongas.
A reação da Luísa não preciso nem descrever e o Heitor, indignado, proferia palavrões ofendendo até a 5ª geração dos que o acusavam.
O clima ruim estava instalado, não precisava ser meteorologista para saber que raios e trovões se faziam presentes n’aquele espaço isolado. Luísa ligou os fatos, o estupro ocorrera a dois dias, naquela mesma noite em que Heitor se atrasara devido ao congestionamento e a um pneu furado, mas Heitor jurava inocência.
Fernando, confuso, despediu-se e deixou o casal naquela situação. A lua de mel estava prestes a acabar e muita explicação seria necessária.
Heitor amava Luísa, Luísa amava Heitor.
Outro dia encontrei Heitor no supermercado, a noite, sozinho e descobri que ele, realmente, não estava envolvido do estupro, mas com toda aquela confusão o seu casamento não era mais o mesmo. A lua de mel por certo já acabou.