Artigos da categoria ‘Pensamentos’
Apagão
E como a maioria, também sinto os efeitos do apagão. Deletei Apaguei os links das tv’s porque notícias velhas eu leio no jornal das manhãs e as novas/instantâneas eu vejo no twitter.
Algumas fotos da última viagem ao nordeste e aquelas do carnaval de 2003, alguém apagou.
O rascunho daquela poesia que escrevi depois daquela noite infinda, também foi apagada.

Não tenho uma memória privilegiada mas algumas ideias que armazenei nos confins do cerébro se apagaram. Um fax que recebi daqueles créditos de quando vendi as ações da Petrobrás, se apagou.
As esperanças, os sonhos, a realidade, as palavras, os textos e até os sentimentos se apagaram e percebo que a vida é efêmera e simples raios e relâmpagos de tempestades imaginárias arrasam com edificaçoes abstratas que construimos durante nossa estada e passagem neste mundo dominado por humanos que não se importam com os seus semelhantes e nem com a dor, com o amor, com o corpo ou com a alma.
Apague-se o “apagão”.
A alma é a alma
O barulho da rua me incomoda. A cortina balança movimentada pelo vento que sopra na janela do apartamento. Outra moto passa e seu ronco barulhento penetra nos meus ouvidos e a voz do Bonner se emudece e não fico sabendo da notícia da hora. Continuo imóvel na poltrona a meditar sobre mudanças, conceitos, amizades.
O pensamento é uma coisa muito estranha. Um emaranhado de palavras e imagens que se acavalam e se sobrepõe, umas às outras. Uma simples imagem realimenta outra e nos coloca em ambientes tão pertos e, ao mesmo tempo, tão distantes, que nos perdemos em meio aos sonhos ou à realidade
O tempo modifica os nossos conhecimentos, os nossos conceitos.
O tempo modifica nosso corpo e parece que nossa alma o acompanha. A cor azul do vestido rosa confunde nosso discernimento e nossos ouvidos escutam o que querem escutar, nossos olhos veem o que querem ver, nossos lábios tocam o que querem tocar e nossas mãos agarram as oportunidade que se apresentam.
O calor do dia, com este sol escaldante, parece que danifica os nossos neurônios e eles, por vezes, são incapazes de se entender, uns com os outros.
Ouço sons de violinos e pianos, e os Bosques de Viena me fazem viajar. Percebo borboletas pretas sobrevoando o teto e pousando nas paredes do quarto.
A debilidade do corpo e a insanidade da mente não ofuscam a beleza da alma.
Produzir com inspiração, cada um tem a sua maneira.
Não sou blogueiro/escritor/poeta de rascunhos.
Quando escrevo vou do começo ao fim. Sem parar. Por vezes reviso, mas quando o artigo ou poema está pronto, está pronto e ponto final. Não altero, não complemento, não incluo versos no meio, não modifico o sentido das frases para não comprometer o texto. É o sentimento do momento que procuro expressar e transmitir.
As vezes falta inspiração, passo dias sem produzir nada e jogo ideias de um lado ao outro dentro do cérebro. Ideias que se chocam e se partem e se combinam parecendo reações químicas de um, dois, três elementos formando novos.
As vezes produzo um texto normalmente como o que estou escrevendo agora, as vezes vejo-me envolto em uma nuvem de letras e palavras e ideias que se justapõe e vão formando textos distintos. Já me vi escrevendo, ao mesmo tempo, um texto e dois poemas com temas bem diferentes mas que conclui um após o outro.
Já me queixei a alguém que estava sem inspiração para escrever sobre dado assunto e com a sugestão deste, no meio da conversação, arquitetei o texto ou o poema e o finalizei até o fim do diálogo.
Tenho textos e poemas guardados para, quem sabe um dia, publicá-los, mas gosto mesmo de lançá-los na virtualidade do meu blog, mesmo porque existem pesquisas que indicam que estamos lendo cada vez menos livros e não sabemos o porque. Se os livros em geral estão em baixa o que dizer dos específicos, como por exemplo os livros de poesias de que trata a Lunna neste artigo em suas Teorias Impossíveis.
Eu já me contentaria em saber “quantos livros ou poesias você leu em toda a sua vida…” já que saber quantos livros de poesias você comprou é praticamente impossível, se bem que a quantidade de poesias lidas deve superar de longe a quantidade de livros de poesias comprados.
É o que eu penso.
Como encontrar as palavras certas
Onde estão as palavras?
Esquecidas na gaveta da escrivaninha, entre réguas, borrachas e blocos de rascunho? Acotoveladas nas folhas finas do dicionário de capa preta em ordem alfabética? Relacionadas e repetidas e relacionadas e repetidas em textos, em artigos de jornais, de jornais, de revistas, de revistas, de livros, de livros ou na internet?
Palavras… Procuro-as, mas elas não me aparecem. Inoportuno momento de vazios e de ecos insignificantes que maldigo.
Irrito-me.
Saco da minha arma e disparo em todas as direções. Palavras perdidas atingem pessoas que absorvem ou não o conhecimento que elas tentam transmitir.
A menina de cabelos encaracolados chora, emocionada, pela palavra “mãe” e corre em sua direção, a mãe assusta-se pelo estampido, mas percebe o “sorriso” da filha e abraça-a. Alguns mendigos foram atingidos por “pão”,”água” e “leite” saciando parte da sua fome e sede. Alguns sentem, outros nem tanto e muitos notam as palavras, mas se esquivam delas.
Amor, ódio, energia, corpo, alma, guerra, paz, drogas, riscos, desejos, emoção, são palavras que se misturam a exmo e tenho a impressão que a arma usada era uma metralhadora, pois cada vez mais elas se apresentam nas ruas, nos carros, nos rádios, nas mensagens, nos outdors, nos e-mails, na boca do pregador, na praça, com sua bíblia em punho, no discurso dos políticos, na canção cantada pelo cantador, no noticiário televisivo, na poesia do poeta morto.
Onde estão as palavras?
Palavras arcaicas, neologismos, gírias, palavras científicas, estrangeiras, regionais, sazonais, palavras novelísticas.
Palavras! Não as encontro. Imagino-as presas naquele livro de capa dura que não gostei de ler e ouço seus gritos e gemidos.
Palavras que agora tomam conta do meu imaginário e que “vomito” sobre a folha de papel através de meus rabiscos e borrões tal qual tela de pintor famoso e nem tanto. Tento manter-me distante desta loucura e em silêncio sinto que loucura e silêncio e perturbação e indignação e obscuridade e interrogação são, também, palavras.
Agora estão, elas, aí, todas, espalhadas, aos quatro ventos.


Caminhando na solidão
Caminhar, exercitar-me numa cidade onde as ruas e avenidas são planas não me cansa.
Fim de expediente, tênis, bermudas, camiseta e “pernas na estrada”. Trinta minutos, uma hora, ducha quase fria e como todo bom gaúcho, tomar um bom chimarrão.
O vento sopra e balança o sininho pendurado na sacada e o som produzido passa um sentimento de tranquilidade, de paz.
O apartamento está deserto, nem o Fredy está hoje, para correr sobre o estofado, receber-me à porta quando chego, ou miar aqueles miados chorosos, implorando ração, atenção, colo ou cama.
A TV ligada, sem o som, contribui para amenizar a solidão. O jornal de ontem me conta velhas novidades em forma de notícias, mas o Eduardo Galeano me envolve na leitura de suas “As palavras Andantes” e em sua “Janela sobre o medo” ele diz:
A fome come o medo. O medo do silêncio atordoa as ruas. O medo ameaça.
Se você amar, vai pegar aids
Se fumar, vai ter câncer
Se beber, vai ter acidentes
Se respirar, vai se contaminar
Se comer, vai ter colesterol
Se falar, vai perder o emprego
Se caminhar, vai ter violência
Se pensar, vai ter angústia
Se duvidar, vai ter loucura
Se sentir, vai ter solidão.
E não preciso escrever mais nada…