Artigos da categoria ‘Lembranças’

26 de dezembro de 2009

Os fogos que anunciam um novo ciclo.

Os pais dos nossos avós vieram da Alemanha e se instalaram aqui no Rio Grande do Sul/Brasil sem falar uma palavra do português, nossa língua nacional.

Nossos avós falavam 80% do tempo em alemão, 10% num português misturado com alemão e 10% não falavam só ouviam, tentando entender o que os outros diziam.

É nesta época do ano em que as pessoas se irmanam e se solidarizam e trocam presentes e confraternizam com suas ceias natalinas (perus, chester, churrascos) e soltam fogos para demonstrar que o ano que está por terminar foi maravilhoso ou nem tanto, que sempre vem-me a memória as festas que estes alemães trouxeram da Europa e adotaram para as suas comunidades aqui no sul, como por exemplo os “Kerbs” que era (e ainda é) uma festa de comemoração do aniversário da Igreja.

…terminado o culto na igreja, iniciava-se uma romaria até o salão de festas pelas ruas da cidade, uma banda de sopros e gaitas e violões e violinos comandava o espetáculo e o povo vinha atrás da banda, feliz, dançando, conversando, soltando fogos que explodiam nas alturas e ecoavam aos quatro cantos da cidade. É aqui que eu queria chegar:

O som dos foguetes era ensurdecedor, incessantemente os homens soltavam um após outro e aquilo contagiava todos os presentes, menos os cães, os gato  e o meu irmão. Cães e gatos têm uma audição muito aguçada e o som dos foguetes atingia decibéis que perturbavam-nos, atingindo diretamente seus tímpanos o que fazia com que eles corressem, fugissem, escapassem, procurassem lugares mais distantes, onde fossem menos atingidos. E o meu irmão, sei lá se ele tinha um ouvido muito bom e percebia o que nós guris e gurias de 5 a 8 anos não percebíamos, corria em disparada, como os cães e gatos, até a casa da nossa avó e se escondia debaixo da cama dela e de lá só saia depois que os fogos cessassem.

E os fogos ecoavam nas ruas e nos becos da cidade e o guri escondido debaixo da cama.

Era hilariante. Todos brincando ao redor da banda, dançando, comendo pedaços de cuca ou bolo, tomando guaraná que é muito melhor que soda e ele, meu irmão, escondido debaixo da cama da nossa avó.

Memórias e lembranças de um tempo em que as coisas simples nos divertiam e nossos vícios eram tão singelos e simplórios que não tinha comparação.

Que os fogos natalinos e de fim de ano nos remetam à infância, mesmo que tenhamos que esperar pelo irmão que está escondido debaixo da cama dos avós, para relembrarmos-nos momentos onde o consumismo não era tão desenfreado e que em uma romaria da igreja até o salão de festas encontremos esperanças no ano que vem logo ali.

Sai debaixo da cama, guri.

16 de dezembro de 2009

Criança sorri e emociona quem as faz sorrir

“Botei meu sapatinho na janela do quintal,

papai noel deixou meu presente de natal.

Como é que papai noel não se esquece de ninguém,

seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem…”

Cresci ouvindo e cantando esta música que nos encantava e nos envolvia nesta magia que era o Natal. Colocar o sapato na janela era uma de nossas práticas em tempo de criança (te lembra Neusa?) e sempre encontrávamos algo, nas manhãs em que acordávamos excitados em busca do presente que, financeiramente, não significava muito mas e a magia… Ah!!!! A magia…

Incentivamos este costume na nossa família e a repetição dos atos por nossos filhos nos deixava muito felizes. Lembro que certa vez a Camila, nossa filha mais nova, no alto dos seus quatro/cinco anos, não lembro bem, chamou-me e pediu ajuda para colocar o “sapatinho” na janela. Colocamos e ela com muita ansiedade queria ir dormir logo para que a noite passasse, para que a manhã chegasse, para que o papai noel deixasse um bombom, um chocolate seu presentinho.

Que beleza, pensei, mas logo percebi que nada tínhamos em casa, caramelo, bombom, chocolate, pirulito, para que o “papai noel” colocasse no sapato. Bateu o desespero, como interromper tão precocemente esta magia? Como dizer a filha que o “papai noel” nada tinha para deixar?

Ideia!!!!!

“Querida Camila! Faltam treze dias para o Natal. Estou com muito trabalho e hoje não pude deixar nada, pois o estoque acabou e o mercado já estava fechado. Eu voltarei. Abraços :  PAPAI NOEL”

Um bilhete que a deixou feliz e que por muito tempo ela mostrava aos irmãos e colegas. Algum tempo depois falamos sobre o fato e sobre a importância que pequenos gestos podem colaborar com a felicidade e com a realização dos sonhos, mesmo que sejam sonhos pequenos, simples, como receber um bombom num sapato que se coloca na janela do quintal.

Feliz Natal a todos

26 de novembro de 2009

O dia em que ele flutuou

Era um salão antigo, tipo aqueles que se vêem  nos filmes americanos. Duas entradas, uma mais à esquerda, porta de madeira, grande, pesada, que só era aberta em ocasiões especias:  festas, casamentos, exibições de filmes e outra , mais à direita, menor, mas também de madeira que era usada no dia a dia para dar entrada e saída aos frequentadores da ala menor do salão onde ficava o BAR; um balcão de pedras rebocadas, mas com algumas falhas, lascas nas pontas, umas mesas de madeira quadradas com cadeiras de palhas, onde alguns sentavam a jogar baralho: canastra, “schow ckopf”(nem sei se é assim que se escreve este jogo de origem alemã), tomando a sua gazosa ou o “martelinho” de cachaça; um freezer cheio de sorvetes, caseiro, gostoso, fabricado pelo próprio proprietário, uma mesa de sinuca com bolas azuis e vermelhas e cujos tacos “viciados” disputávamos aos tapas, uma pia amarelada pelo tempo e uma torneira, de plástico, preta, cuja peça decorativa não sei o que fazia ali. Poucas luzes, eu diria, uma penumbra mesmo de dia, pois havia somente uma janela de oitenta centimetros com vidros quadriculados e em cuja transparência o sol se negava a penetrar.

No salão mais amplo um piso de madeiras largas, escuras, pintadas a óleo cru, que rangiam por onde se andava. Filmes do “Teixeirinha” assistíamos ali, sentados nas cadeiras de palha, uma atrás da outra e até uns bancos de madeira mais lá pro fundo, num telão improvisado.

teixeirinha

Da porta para fora uma escada com sete degraus que dão ao pátio de chão batido circundado por pedras de cascalho pintadas a cal branco, uma árvore de cinamomo dando sombra a quem dela precisasse.

ns_cinamomo_

Todas estas lembranças afloraram madrugada passada na minha mente quando, no sonho, me vi flutuando escada abaixo, sem descer degrau por degrau. Simplesmente flutuando, não descia os degraus, lutava contra, mas os pés não tocaram o chão antes de chegarem na calçada do outro lado da rua.

Acordei atordoado, ainda e fiquei procurando razões para que estas lembranças se apresentassem desta forma para mim. O salão já foi, a tempos, demolido dando lugar a outro prédio, mas as imagens foram tão nitidas, a escada, o outro lado da rua, eu flutuando, e o filme todo passando.

Deve ser algum sinal, não sei, quem sabe em outro sonho…

18 de outubro de 2009

Jogar ou armar boliche

O que será que nós ainda não fizemos?

Outro dia fomos ao “xopin” e jogamos boliche. Tudo automatizado, os pinos derrubados sendo reerguidos, as bolas sendo devolvidas, o número de pinos sendo marcados no placar, tudo automaticamente, até o tempo que compramos sendo controlado pelo computador.

Lembro-me de um tempo não tão distante, na minha infância, quando ajudar nos afazeres domésticos ou entregar jornal, ou fazer um ou outro serviço a troco de algumas moedas para ajudar no orçamento familiar, era algo  normal e não era proibido por lei e os nossos pais não eram acusados de exploração infantil e não vinha nenhum conselho tutelar dar palpites sobre a administração familiar e nós não nos envolvíamos com pequenos furtos, nem com vadiagem nem com drogas nem com nada… Tá, era uma época difícil e, por exemplo, o boliche não era computadorizado.

Terças-feiras a tarde, quartas e quintas-feiras a noite era quando eu ia, faceiro, ao clube da cidade trabalhar de “armador de pinos de boliche”. Os homens e as mulheres jogavam a bola, os pinos eram derrubados, jogávamos a bola, rapidamente, de volta por uma espécie de trilho, armávamos os pinos e em seguida já vinha outra bola, derrubando mais pinos e lá íamos nós armar os pinos novamente. As vezes as bolas eram jogadas com tanta força que os pinos eram arremeçados com violéncia conta a parede e por vezes tínhamos que nos defender para que não fossemos atingidos.

Nossa maior alegria era quando, depois de todos os jogadores jogarem, recebíamos o nosso pagamento e muitas vezes adicionado de um refrigerante, inteiramente grátis. Depois, bem, depois corríamos para casa, entregávamos o dinheiro recebido aos pais e íamos jogar bola, brincar de esconde-esconde, de pega-pega, ou de outras brincadeiras que inventávamos, porque, afinal de contas, ninguém era de ferro.

BolicheÉ difícil dizer o que ainda não fizemos, mas quem passou por certas coisas no passado nunca terá medo ou terá problemas para enfrentar obstáculos ou desafios no presente e/ou no futuro.

18 de agosto de 2009

Quem será que gosta de velórios e enterros?

Não gosto de velórios. Não gosto de enterros. Não gosto.

O Edmundo gostava, pois indo aos velórios e enterros, sabia que não era ele que morrera e nem era ele que estava ali deitado no caixão. Fui ao enterro e ao velório dele e consegui captar este seu pensamento, mas não peguei gosto pela coisa, talvez seja um trauma de infância.

Corríamos atrás da bola, ao lado da igreja, naquele terreno baldio, quando a irmã do Renato veio chamá-lo aos prantos: – O pai morreu , o pai morreu…e sairam, os dois, correndo pra casa. Continuamos jogando desfalcados, agora, do melhor goleiro da escola, que jogava de “kichutes”, abrigo e joelheiras e nós de calção, sem camiseta e pés descalços.kichute5yi4 O Renato sofria de astigmatismo e usava óculos que lhe dava um ar intelectual (não os tirava nem para jogar futebol) e sempre dizia que quando crescesse seria médico. Não sei se conseguiu.

No fim da “pelada” e depois das rotineiras discussões, quase brigas, futebolísticas que nos levavam a descoberta da pólvora, caminhamos estrada acima com destino a nossas casas e nos deparamos com um movimento anormal na casa do Renato. Muitas pessoas dentro e fora da casa, crianças circulando a exmo, cavalos amarrados em postes específicos e o Piloto, cachorro do pai do Renato, uivando, latindo, chorando pelos cantos. Caiu a ficha! O homem morrera mesmo e todos ali velando o seu corpo.

Logo veio-me a mente a imagem do Sr. Alfredo, pai do Renato. Um homem alto, forte, voz grossa, mastigando seu charuto, sempre de bombachas e botas , esporando seu cavalo pelos campos, tocando a boiada de pasto em pasto (trabalhava no frigorífico) e agora estirado naquele caixão, pálido, branco, onde o seu grande bigode preto se ressaltava ainda mais e as rugas marcando o tempo que já passou em seu rosto.

A casa não era grande. A sala não era grande, mas os amigos, os conhecidos, os não tão amigos nem tão conhecidos passavam pelo caixão para dar o último adeus. Velas, só velas iluminando aos presentes, dando um ar sombrio ao lugar e espalhando um cheiro horrivel que ficou impregnado na camiseta que eu usava, por meses.

O Elói foi o primeiro a dar os pêsames à família, depois eu, o Flávio, o Osmar, quase o time completo, mas meu irmão ficou parado, sem se manifestar, o que me levou, discretamente, a incentivá-lo. Reagiu empurrando-me, sai cambaleando, tropecei numa cadeira de palhas e cai sobre o castiçal, derrubando as velas que cairam perto da cortina colorida já em chamas e apagadas pelo Alarico, irmão mais velho do Renato. Senti um forte aperto do dedo polegar e indicador na minha orelha direita puxando-me para fora da sala, puxando-me para fora da casa, puxando-me até a quarta casa acima onde morávamos e só então vi a cara raivosa da minha mãe pelo ato praticado. Não tinha argumento que me inocentasse desta presepada.

Foi o meu primeiro velório. Não foi o meu primeiro enterro, mas ainda lembro hoje, dos homens carregando o caixão pelas alças, daquela gente toda indo em direção ao cemitério e do riso sarcástico dos meus amigos e do meu irmão pelo fato de permanecer em casa, de castigo, por algo que não cometi sozinho no velório do Sr. Alfredo, o pai do Renato, nosso goleiro.

Definitivamente não gosto de velórios e enterros. Não, não gosto…

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