Artigos da categoria ‘Histórias’

2 de agosto de 2010

Hoje eu ignorei…

Hoje ignorei o frio, a chuva e o sol.

Ignorei os odores, as cores e os sabores. Ignorei os motivos, as consequências, os sonhos, os devaneios e a realidade. Ignorei os compromissos, as necessidades, os planos, as expectativas, os anseios, a ansiedade, a tristeza e as alegrias.

Ignorei as imagens, os sons, as desgraças, os ventos, a solidariedade e os movimentos. Ignorei as palavras, as frases e os textos.

Ignorei a solidão as esperanças e a intuição. Ignorei os impulsos, os discursos e os insultos. Ignorei as técnicas, a ética e a métrica. Ignorei a música, as flores e os gira-sóis. Ignorei os medo e os temores.

Ignorei os instintos, a paixão, as dores e amores.

E saí por ai!!!!!

28 de julho de 2010

A parábola do milho e do agricultor

Existia uma vez, na distante terra do “talvez”, um agricultor colono fazendeiro que plantava milho.Tinha uma área pequena de terras e sua plantação prosperava. Plantava, colhia, vendia, pagava suas contas, pagava seus colaboradores, guardava um pouco do lucro e uma parte reinvestia e adquiria mais terras que eram adubadas, semeadas, cuidadas, a safra colhida, vendida, pagava suas contas, seus colaboradores, parte do lucro para a poupança e parte comprando novas terras, reinvestindo.

Ano após ano o agricultor se destacava entre os fazendeiros da região, apresentava um bom desempenho e crescia sem parar, conseguia aumentar sua propriedade e até comprava terras em todas as regiões, mais próximas e mais distantes. Agora ele já tinha plantações de milho por quase todo estado da federação e em cada plantação tinha dezenas de colaboradores que eram bem remunerados, recebiam um bom salário, valores por produção e até percentuais sobre os lucros.

Graças ao espirito empreendedor e ao amplo conhecimento sobre relações interpessoais, o agricultor cativava a todos e até os colaboradores de agricultores vizinhos, seus amigos, queriam trabalhar na sua plantação de milho que já estava sendo diversificada. Aparecendo uma vaga sempre tinham muitos para trabalhar e a escolha se tornava fácil.

Agrônomos, veterinários candidatavam-se e passavam a trabalhar. Eram jovens “com o gás todo”, motivados pela rapidez dos resultados, teóricos (sem a prática), em busca do seu espaço a qualquer preço e a presença ou valorização dos trabalhadores mesmo, aqueles que ajudaram a plantar as primeiras sementes, aqueles que sofreram nas poucas interpéries que ocorreram, que cresceram na propriedade com os ensinamentos e a motivação do agricultor, aos poucos, ia diminuindo.

A propriedade crescia e crescia e além de “plantadores” que ficavam no campo, cada vez mais foram contratadas pessoas para a administração dos negócios para:  comprar as sementes, separar e enviar para as plantações, estocar, conseguir preços melhores, administrar o pessoal, controlar gastos, fazer cobranças, controlar remunerações, implantar programas informatizados e todo o tipo de serviços administrativos inerentes as funções.

Eram muitas pessoas e, proporcionalmente, quase tinham mais trabalhadores administrativos que trabalhadores braçais, do campo, que ficavam na ponta da propriedade. Aos poucos, depois de muitos estudos, os “administradores” chegaram a conlusão que os trabalhadores não eram os mais importantes da cadeia produtiva, que o que importava eram as sementes, o adubo, que existiam variedades de espécies de sementes e que a transmutação delas é que dava o melhor rendimento e que era isto que levava as plantações ao sucesso.

Conseguiram convencer o agricultor disto e ele tomou medidas excluindo ganhos, remunerações. O que antes representava produtividade numa determinada plantação, agora não era o suficiente e o crescimento exigido era sempre maior do que as possibilidades. Obtendo um crescimento inadequado, ou, não produzindo o suficiente em determinada safra, a remuneração diminuia, os lucros não eram mais distribuidos e o pagamento pela produtividade se esvaia.

Os trabalhadores antes motivados e sempre prontos para enfrentar o sol ou a chuva do dia a dia, agora não mais conseguiam desempenhar suas funções a contento, deixando de lado técnicas que sempre deram certo e aderindo a algumas que comprometiam o desempenho, como por exemplo, adubação em excesso, covas mais próximas, menos sementes nas covas…

Esta história, na distante terras do “talvez”, ainda não acabou, mas muitos trabalhadores já foram plantar em outra freguezias, muitas plantações, pelas técnicas indevidas e pela desmotivação, diminuiram a colheita e mesmo aquelas plantações novas que o agricultor continua implantando, estão colhendo muito aquém das espectativas…

Não, não se mata a galinha dos ovos de ouro, mas também não se deve diminuir os quilates do quinhão que é distribuido.

21 de julho de 2010

Aqueles olhos verdes…

Toda vez que ela olhava para aquela fotografia no porta-retratos que estava sobre a mesa sentia uma dor no peito que lhe trazia uma estranha sensação.

Quatro pessoas: ela, a amiga outra amiga e o Carlos, ao fundo, em segundo plano, uma imagem de alguém desconhecido mas que direcionava os seus olhos  para ela e mesmo na estática da fotografia, parecia que a analisava dos pés a cabeça, por dentro e por fora, de cima a baixo.

Outro dia, caminhando pelo calçadão da Bonifácio, avistou alguém que seguiu e quase perseguiu. Quando alcançou-o, tocou em seu braço e a decepção foi omérica, pois não era aquele da fotografia, era alguém mais desconhecido ainda.

Na terça-feira, chegando do trabalho, abriu a porta e lá estava ele, olhando para ela no segundo plano da fotografia, acompanhado da amiga, da outra amiga e do Carlos. Pegou o porta-retratos, enrolou numa folha de jornal, amarrou com um barbante e colocou no fundo da gaveta da cômoda, atrás de suas camisetas e pijamas.

Quarta-feira ela não voltou para casa, mas na quinta, assim que chegou, foi direto ao quarto, retirou o objeto da gaveta, rasgou o papel, colocou cuidadosamente na estante, sentou-se no sofá e passou a observar a fotografia,  tentava lembrar-se de algum detalhe no rosto, cabelos, os olhos verdes, talvez os lábios, sei lá. Nada. Nenhuma pista.

Esta estranha mania de imprimir fotografias tiradas pela câmera digital Nikon que comprara nos EUA ainda lhe traria aborrecimentos, pensou e foi pensando nisto que teve a idéia de rever algumas outras fotografias que estavam armazenadas no álbum a procura de evidências (êta termo policial). Coincidência, ou não, em algumas fotografias tiradas em locais distintos, em dias diferentes, com pessoas quase nunca repetidas, aparecia o homem daquela fotografia que ela colocara no porta-retratos em que estavam ela, a amiga, outra amiga e o Carlos. Em todas, cinco ou seis, ele aparecia discretamente, com seus cabelos compridos, seus olhos verdes endereçados, tal flechas a transpassar corações saídas do arco de cupidos, a ela.

Estranha coincidência. Seu peito agora parecia querer explodir  e aquela sensação estranha deixava-a transtornada. Jogou o álbum num canto, tentou fugir do olhar dos olhos verdes, correu da sala para o quarto, retornou e agora sentia-se observada por pares de olhos que acotovelavam-se nas paredes brancas, rodou em seus próprios pés, tropeçou na mesa de centro, caiu, bateu a cabeça, desmaiou e só acordou no outro dia, na cama do hospital, sob os cuidados e sob o olhar atento do Dr. Daniel, que, coincidentemente, era dono dos cabelos longos, dos olhos verdes que apareciam nas fotografias da Débora, inclusive aquela tirada com a amiga, a outra amiga e o Carlos…

Esta história precisa de continuação…

11 de julho de 2010

Reflexões e pensamentos e premonições

Parece que os motivos não são os mesmos, mas o resultado da busca foi igual para todos. Culpas e desculpas remetem a esperas desnecessárias e conversas a exmo não levam a nada. Fracassos e sucessos não demonstram procedimentos certos ou errados. O sentido das coisas se perde em meio ao labirinto de emoções onde o melhor e mais sensato é deixar passar a tempestade, acalmar a ventania e prosseguir na velocidade apropriada.

Observar os loucos e os malucos, que assumem seus atos e enfrentam a sociedade assustada pela total falta de parâmetros, é um exercício que nos faz encontrar soluções para questões que talvez só mesmo com a ajuda de um bom analista conseguiríamos.

Mas quem somos nós para rotular pessoas e taxá-las de “loucas”, de “malucas” se os espelhos que refletem nossas imagens, por vezes, dizem as mesmas coisas sobre nós?

Desculpa, mas esta culpa não é minha, meus motivos são circunstanciais e a minha busca é incansável e em meio a tantas figuras, esforço-me em criar neologismos, novos versos, novos textos e poemas para dizer e reafirmar as mesmas inquietudes.

Eu sei tudo que eu fiz. Eu sei tudo o que eu disse. Eu preservo a memória e a amplio a medida que se faz necessário. Penso e reflito muito sobre um passado que está tão estático, como um retrato amarelado guardado no meio das folhas, também amareladas, do livro que li quando buscava horizontes que só se encontra neles.

Penso e reflito muito sobre o presente que vivo com muita intensidade.

Penso e reflito muito sobre um futuro que por mais que nos esforcemos, sempre dá lugar ao presente e quando percebemos estamos projetando-o novamente, sonhando, planejando e buscando formas, meios, motivos para alcançá-lo.

Quando lemos um conto, quando lemos um texto, quando lemos um livro, quando apreciamos uma poesia, quando vemos uma criança correndo atrás de uma bola que insiste em rolar rua abaixo, quando ouvimos os pássaros cantando nos inícios das manhãs, quando percebemos os girassóis girarem acompanhando o sol, quando vemos o vento ventando e soprando sementes de árvores e de flores e de arbustos de um lado ao outro do mato, da mata, da pracinha ai da nossa cidade, para que a natureza não se acabe, quando o trem já se vai pelo trilho escolhido no meio do túnel que leva ao outro lado, quando os nossos pensamentos tomam conta do vazio que existem em nossas cabeças, quando nos perdemos em meio a dúvidas sobre a existência de corpo e de almas, paramos e num magistral balançar de varinha de condão que fadas maquiavélicas esqueceram em pontos estratégicos, transformamos tudo e implacavelmente, transferimos estas incertezas, estas dúvidas, estas culpas, estes fingimentos, estas esquisitices malucas e maravilhosamente loucas, para pessoas sensíveis que vislumbram luzes no fim do túnel.

Espero que sejas uma.

2 de julho de 2010

Dar gorjeta não é obrigatório

Outro dia, num restaurante, falávamos sobre diversos assuntos, quando o tema centralizou-se nas “gorjetas” aos garçons. Uns estavam a favor, outros contra, para alguns tanto fazia e a nenhuma conclusão definitiva chegamos.

Ontem vi no noticiário televisivo que lá em Brasilia estão querendo criar uma lei que incorpora as gorjetas ao salário com direito a FGTS, férias, INSS, adicionais e tudo mais.

Eu já trabalhei de garçon, eu já fui patrão de garçon e garanto que a maioria dos clientes não gosta e não dá gorjetas, mesmo porque, o serviço já está sendo pago com o valor da refeição, da bebida…

É difícil eu pagar, lembro que fizemos (cerca de sessenta pessoas) um barulhaço num restaurante, no Recife, quando queriam nos obrigar a pagar a gorjeta, mas depois de muita negociação conseguimos pagar somente o valor da refeição (sempre tem uns que pagam), claro que fomos homenageados, nós e todos os nossos descendentes e ascendestes até a terceira e quarta gerações, mas também não mais voltamos lá.

Tá certo que é uma tradição já meio enraizada, mas se facilitarmos, mais cedo ou mais tarde, estaremos dando gorjetas ao padeiro pelo pão quentinho, ao cabeleireiro pelo bom corte e “pintura”, ao professor que ensinou muito bem, ao vendedor que atendeu com simpatia, ao caixa do supermercado que deu o troco certo, sem ficar com as moedinhas, ao motorista do ônibus ou do táxi que foi muito solícito, e a todas as demais profissões que também vão querer uma “lasquinha”.

Gorjetas? Só em último caso, mas por enquanto, não pago. E você?

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