Artigos da categoria ‘Cotidiano’
Filósofos e pensadores do século XXI
O “Pavão” nome sugestivo, mas fictício é um grande filósofo. De botequim. Pensador compulsivo e com uma retórica eloquente.
Seu cabelo rastafari é uma característica que o identifica em toda cidade e sua simpatia abre quase todas as portas onde ele penetra com toda sua habilidade para vender seus CD’s e DVD’s piratas (já nem sabemos mais quem faz a pirataria maior)
É discreto, flutua entre os cristais como as abelhas e as borboletas que sobrevoam as plantações de girassóis,
mas hoje ele se superou: Misturou grãos de milho de grão em grão a galinha enche o papo com grão de areia e a insignificância que nós representamos em meio ao emaranhado que é esta vida nesta nossa sociedade e os inúmeros desertos que nós mesmos criamos.
Em cada visita ele nos deixa algumas reflexões e hoje, também, deixou alguns dvd’s que acabei comprando para que ele somasse mais alguns reais em sua poupança que no tempo oportuno será usada para satisfazer um sonho que espera “não estar sonhando só”.
Mas isto é assunto para outro dia.
Mortes acidentais
A violência no trânsito provoca acidentes e consequentemente muitas mortes.
Nesta segunda feira, os jornais, os sites e todos os meios de comunicação noticiarão as inúmeras mortes ocorridas.
Não consigo entender porque as pessoas, principalmente nos fins de semanas prolongados por feriados, saem às ruas para se matar.
Talvez se eu observasse nas auto-estradas, ou até mesmo nas vias urbanas, como os motoristas dirigem seus veículos notaria que a imprudência impera.
São ultrapassagens em locais indevidos, excesso de velocidade, motoristas com muito álcool na cabeça(não estou falando do combustível para o carro) imprudências de toda ordem além, é claro, do lastimável estado de certas rodovias.
Porque será que todos têm tanta pressa? Onde querem chegar tão rapidamente? Será que as praias, as cidades serranas desaparecerão dos nossos mapas se chegarmos alguns minutos depois? Ou será que a nossa ansiedade em estar onde planejamos é tão grande que não conseguimos raciocinar logicamente?
Se temos tanta pressa em ir, porque temos, também, tanta pressa em voltar?
Algo há de ser feito.
Ou nos conscientizamos do mal que estamos causando nos outros e/ou em nós mesmos, ou em breve seremos nós que engordaremos as estatísticas das mortes por acidentes fatais.
Este texto foi publicado inicialmente em 2007, mas como hoje saímos ás ruas e fomos à serra gaúcha e almoçamos no Restaurante Roda d’água e tivemos um prazer gastronômico muito elevado, visitem é muuuuito bom, resolvi republicá-lo pois nada de lá para cá mudou, apenas aumentaram as imprudências e as mortes.
Todos contra o booling-homenagem ao Arthur, o bonitinho
Ultimamente ressurge com força total na mídia um assunto que volta e meia é muito debatido: o booling.
Rebuscando na caixa preta da minha memória, encontro fatos cuja prática se assemelhava a isto e lembro que mesmo no primário entre uma lida das histórias do Olavo e da Élida nos “Livros do Guri”, presenciava-se diversos episódios.
Vou relatar, aqui, no entanto, um booling que ocorria quando já estava no fundamental. 6ª série, turno da tarde, somente uma turma no colégio, nem lembro bem a nossa idade, adolescentes em fase de crescimento, mas ciente de que as gurias já estavam muito a frente dos guris.
Oito guris, doze gurias, turma pequena e antes da aula, no intervalo, no fim da aula a Elaine e a Denise (nomes fictícios) corriam atrás do Arthur, corriam, corriam e gritavam:
-Bonitinho, bonitinho, bonitinho…
O Arthur era rápido e conseguia, sempre, escapar da perseguição nesta corrida do “Pega-pega”, mas o recreio acabava e ele não conseguia comer o seu lanche, além de ser repreendido pelo professor pelo seu aspecto cansado e totalmente suado.
Fim da aula e lá estavam elas, a Elaine e a Denise, correndo atrás do Arthur que disparava rua abaixo, rumo a sua casa, sem olhar para trás.
“Bonitinho, bonitinho, bonitinho, ouvia-se. Outro dia, outra aula, início, intervalo e fim de aula, lá estavam elas, reprimindo, importunando, perturbando, constrangendo o Arthur.
Se fosse hoje, apesar da idade e com toda esta facilidade de acesso a qualquer tipo de informações, Arthur reageria diferente, encararia e quem sabe até “ficava” com as colegas Elaine e Denise, ao mesmo tempo ou não e este assédio booling diferente não o perturbaria tanto, mas na época ele teve que trocar de colégio, para fugir deste processo que o abalou psicologicamente.
Bonitinho, foi assim que o Arthur ficou conhecido e este apelido o acompanhou por muito tempo.
A Elaine e a Denise nem sabiam que estavam praticando o booling e até um dia destes, numa festa em que nos reencontramos, conversamos e rimos muito sobre a situação que à época nos divertia e muito.
Se fosse hoje os pais e o conselho tutelar seriam acionados e envolvidos, os meios de comunicação teriam assunto, esquecendo um pouco da pedofilia. e os processos se acumulariam no Judiciário.
Sou contra o booling, mas existem casos que fazem e farão sempre parte do nosso folclore…
A hiperatividade, uma viagem de ônibus e o que a lei que proibe bater em crianças pode causar.
17:50h. Estou na rodoviária.
Meia hora de viagem de uma cidade a outra para descansar no domingo. O ônibus não está lotado. Na entrada já ouço gritos desesperados e choro de criança. Vou em busca do meu assento e percebo uma criança, uns três anos, rolando debaixo do banco nº 3 e 4, de lá para cá, aos gritos, pedindo refri, pedindo chocolate, pedindo bolachas, chorando. E a mãe, sentada com um bebê no colo, uns três meses, repreendendo, aos gritos, seu filho, a criança que berrava. Era berro daqui, da criança, era berro dali, da mãe e nós, os passageiros sofrendo por osmose. Nossos ouvidos pacientes sendo tratados tal torcedores em copa do mundo na era das “vuvuzelas”.
A viagem continua, o motorista, atônito, aumenta a velocidade, uma passageira solidária pega o bebê para auxiliar a mãe, que aos gritos e aos tapas coloca a criança sentada no banco. A criança levanta, pula e grita. A passageira oferece um doce e por longos cinco minutos o silêncio reina no ônibus, os passageiros se entreolham sorridentes, alguns até conversam e até o som da chuva que caia lá fora sobre o asfalto já se conseguia ouvir.
A mãe dialoga com a passageira solidária e diz que o filho é hiperativo, que ele está em tratamento, que a psicóloga isto, que a psicóloga aquilo, até que nossa tranquilidade é interrompida e os gritos e os pulos e os choros da criança retornam a todo vapor. O bebê, agora no colo da mãe, dorme tranquilamente e a mãe, aos gritos e com gestos treslocados tenta segurar a criança.
Nuca vivi trinta minutos tão longos em minha vida, sorte que o ônibus ja entrava no estacionamento da rodoviária e nós, passageiros, já estávamos felizes pelo desfecho desta pequena aventura, mas que ainda teria um episódio final.
A mãe da criança que estava de pé sobre o assento nº 3, com o filho de três meses no colo, liga com o celular para a sua mãe, exigindo, aos berros, a presença desta na rodoviária para auxiliar no deslocamento à casa, transporte das sacolas e das malas dos filhos.
Chegei a conclusão que a hiperativa é a mãe, que do alto dos seus vinte e poucos anos não tem condições de criar os filhos.
O ônibus pára, os passageiros começam a descer, a mãe balança alucinadamente o bebê para que acorde, puxa a outra criança pela mão, arrasta-a escada abaixo e caminha em direção a não sei onde, nem quero saber e finalmente, consigo descer e me encaminho no sentido oposto, para bem longe, não olhando mais para trás.
Hiperatividade, sei. É falta de laço palmadas na mãe, quando esta era pequena e numa época em que a lei permitia dar umas boas chineladas educativas.
Tinha época em que esta psicologia funcionava.




E eu que pensava que não dormia nas viagens de ônibus
Nunca, nunca durmo no ônibus quando dele faço uso. Nem em viagens longas, nem em viagens curtas. Não sei o que se passa, entro, sento no meu banco, olho ao redor e vejo os bancos quase todos ocupados, o motorista dá a partida e lá permaneço, observando as estradas, a paisagem que geralmente é verde e bem florida, o entra e sai de passageiros, o liga e desliga das luzes internas, ouvindo a conversa de uns poucos que se habilitam a isso. Olhando novamente ao redor, aos bancos dianteiros, laterais ou traseiros, verifico que muitos, cochilam, dormem e até roncam e eu ali, firme, com os olhos bem abertos concentrado, sem conseguir desligar por completo.
Dia destes estava eu sentado no banco número cinco, a minha maletinha de pertences pessoais ao lado no banco seis, com o celular na mão esquerda, uma caneta e um papel na direita a espera de uma ligação com uma informação que julgava ser importante. O ônibus já se deslocando. Havia muitos banco vazios e logo a minha frente sentara um casal jovem, ambos morenos, ela de cabelos compridos e conversavam discretamente, sem estardalhaços, um falava ao ouvido do outro e parece que se entendiam muito bem, pois vez por outra trocavam um caloroso beijo e abraço.
O asfalto não é dos melhores, os pneus passam em buracos, desviam deles e a sinalização é muito fraca. A dupla que conduz o ônibus cerrada na cabine frontal conversa descontraidamente sobre temas que não consigo decifrar. A escuridão lá fora aos poucos toma conta. Olho para o banco logo a minha frente e não mais vejo o casal que tão apaixonadamente se acariciava. O relógio no pulso direito determina que já viajamos por vinte minutos e fico intrigado com a ausência do casal.
Será que eles foram abduzidos? Será que eles se teletransportaram porque a ansiedade de chegar ao destino era muito grande? Será que eles evaporaram porque o clima anda tão seco em certas regiões do país que está propício a isto?
Num curto espaço de tempo imaginei inúmeras situações que poderia envolver o sumiço do casal e esfregando os olhos que pareciam estar cheios de areia, percebo a presença de uma menininha de uns seis anos no banco lateral ao meu, deitada sobre a poltrona, jogando Paciência no celular e me olhando sorrindo e sorrindo me olhando, acena com sua mão esquerda, o que me surpreende e, parafraseando, ou imitando, ou plagiando certos bichinhos tomou? de uma certa propaganda de uma certa empresa de laticínios italiana a “Parmalat”, disse:
ACORDOU???
Pronto:
Estava resolvida a questão do casal que sentara no banco logo a frente do meu. Desceram numa parada perto do lugar em que queriam descer. Puxaram a campainha, o motorista parou, ligaram-se as luzes, eles se levantaram, pegaram suas bolsas na parte superior, dirigiram-se à porta de saída, desceram, a porta foi fechada, o ônibus partiu novamente e eu ali, não percebendo nada e sendo observado por uma menininha de seis anos que ainda jogava no celular e que ajudou a decifrar este enigma que eu mesmo criei.
Tudo bem, dou a mão à palmatória. Não sou tão perfeito assim. Também durmo no ônibus, mas não precisa vir nenhuma menininha esperta para me chamar à realidade e fazer perceber que todas as certezas do mundo são mutáveis.