Artigos da categoria ‘Cartas’

22 de outubro de 2009

Claro que eu te vi

Chovia, o bailado dos guarda-chuvas no seu começo, as poças d’água se formando, as pessoas andando devagar, algunas correndo e tu na calçada do outro lado da rua com aquela capa de chuva transparente e o guarda-chuva que compramos em Estocolmo.

Caminhavas despreocupada falando ao celular e te assustastes quando percebestes-me, parado no trânsito engarrafado. Confesso que não te vi num primeiro momento pois os vidros do carro estavam fechados e eu conversava com a Sheila que me acompanhava.

O sinal abriu, segui em frente e ai sim te senti. A maneira como caminhas, os olhos castanhos,  os cabelos loiros, o teu sorriso mesmo nesta situação do tempo chuvoso, via-se que estavas feliz.

Só mudastes a expressão quando me vistes. Não sei o que pensastes, mas claro, claro que eu te vi, e todo passado em segundos manifestou-se na minha memória e a saudade foi o sentimento predominante.

Claro que eu te vi, mas disfarcei para não prolongar esta história inacabada que já acabou.

O carro seguia, a chuva molhava, o pensamento insistia nas suas incursões sobre o passado, mas tua caminhada em sentido oposto ao meu nos mostrava toda a realidade.

O sinal fecha, breco o carro e o diálogo com a Sheila recomeça.

Claro, claro que eu te vi…

7 de maio de 2009

Resposta de Pedro às cartas de Paulo

Estou respondendo as cartas, Paulo, que nem mesmo sei se foram endereçadas a mim, pois na época, nossa turma era formada por mim, por ti, a Maria Cristine, a Andréia e o Pedro (segundo – como o chamávamos). Será que não eram para ele? Bons tempos, Paulo, mesmo depois de quando completamos o “primário e saímos do Colégio Estadual e nos separamos da Maria Cristine que foi estudar em outra cidade. Também, filha de professora, tinha de estudar em colégio melhor… A propósito, cá prá nós e só entre nós, já escrevestes um artigo no teu blog sobre Maria Cristine ela, a primeira namorada? Desculpe a indiscrição!!

Gostei de relembrar, mas comparando com hoje, nossa vida, nossas escolas, nossas cidades, nossos governos, vejo um grande abismo.

O trâsito não anda. Cada vez mais carros, transporte coletivo caótico, cada vez mais pessoas e os congestionamentos GIGANTESCOS. As escolas um caos. A educação tomou rumos que não tem volta. Os pais deixam nas mão dos professores, que mal preparados e mal remunerados e sem condições de trabalho, lavam as mãos. Os alunos fingem que estudam, os professores fingem que ensinam, os pais fingem que está tudo bem e o governo, bom, os governos fingem que governam.

Estás me achando cético? Pessimista? Propagandista do caos? Releve, Paulo. Tem coisa muito pior. Se não melhorarmos a educação nada melhorará. E olhe que nem falei das drogas, o crack rola livre nas ruas, em frente as escolas e até dentro delas; dos bandidos e criminosos que a cada dia que passa tornam-se mais poderosos; dos políticos que perderam a vergonha e se locupletam sem esconder, criam CPIs, investigam, os menos podres procuram os podres dos mais podres que encontram mais podres dos pretensos menos podres e tudo fica por isto mesmo.

É, Paulo, o realismo nos choca, nos constrange.Sinto saudades de quando, como diz o poeta, “éramos felizes e não sabíamos”.

Outro dia recebi um e-mail do Renato, formou-se médico, cirurgião plástico e mais tarde, pelo msn confidenciou-me que nunca ganhou tanto dinheiro fazendo reparos no corpo das pessoas (principalmente de mulheres). Vistes, nem tudo está perdido, pelo menos 2% da população ainda leva uma vida decente, podendo fazer cirurgias plásticas sem depender das filas do SUS.

Estou me alongando. Poderíamos nos encontrar qualquer hora (como diz o Chico põe meia dúzia de Brahma prá gelá…). Venha visitar-me, mas não já, pois aqui estamos de quarentena, são algumas doenças estranhas e inéditas que insistem em atacar novamente. É a meningite que vai e volta, a febre amarela que pensei estar extinta e agora a gripe suína ou a gripe “A” como alguns preferem, que faz com que muitos andem de máscara e lavem as mãos seguidamente.

Observe os noticiários televisivos, Paulo, quando os casais dos jornais das notícias pararem de falar na crise financeira, na crise social, na crise política, na crise existencial da cadelinha Zuzu da apresentadora Tété, na crise, na crise, na crise, venha, mas com cuidado e rápido e sorrateiramente porque o mundo pode ter acabado…

Abraços otimistas e até breve.

2 de fevereiro de 2009

Outra carta aberta ao meu amigo Pedro.

Já estás ficando famoso, Pedro. São cartas e cartas que te escrevo e fico aqui, no aguardo das tuas respostas.

Outro dia, lembra, escrevi uma falando sobre o passado e as nossas projeções, mas hoje eu quero, eu preciso falar do presente.

Já terminou o primeiro mês do ano e o país, o mundo anda em marcha lenta. Todo ano, Pedro, é a mesma coisa, termina dezembro e tudo para (já não sei se ponho ou não o acento), as pessoas param, as cidades grandes param, as cidades pequenas param, carros quase não circulam, até se pode atravessar aquela avenida deserta sem olhar para os lados. Em compensação, Pedro, as praias ficam insuportavelmente cheias, cadeiras, guarda-sóis, crianças, cachorros, argentinos, jogadores de fresco-bol, milhares de “Giseles Bündchens” desfilando as suas havaianas, ou será que são ipanemas, nas areias, superbonzeadas a procura de um câncer de pele, homens carregando suas barrigas seus barris de cerveja, ambulantes vendendo até a alma e todos, com raras excessões, cavando sua crise financeira particular e empurrando para os meses a frente a solução de tudo.

É incrível, Pedro, como a crise financeira mundial afetou o orçamento dos brasileiros. Tu ris, mas é verdade. Eles comem cada vez mais nos “fast food”, consomem cada vez mais coca-cola, usam o cheque especial até o limite e o cartão de crédito, então, está sempre estourado, tudo para que as empresas norte americanas (as que sobraram) não quebrem, não peçam falência, solidarizando-se com o presidente Obama que foi eleito e escolhido o salvador da pátria, mas que governará de acordo com a caderneta instituida a muito pelos democratas, sem novidades, sem tirar coelhos das cartolas, procurando soluções para seu problemas internos, impondo acordos, dando subsídios, taxando importações e os outros paises que se fodam explodam.(concorda Nathália?)

Aqui no Brasil, como lá nos EUA, Pedro, também inovarão. Dilma Mulher na presidência com apoio de Lula e de todos aqueles políticos de ocasião que trocam seus votos e apoios por cargos, por favores e se dizem fãs de carteirinha da Dilma. Não sei, Pedro, mas aqui no Rio Grande do Sul não funcionou. Nada contra as mulheres,  tu me conheces e sabes que as admiro e defendo a presença delas cada vez mais em todos os setores, mas o feito mais importante da governadora Yeda foi a compra do AEROYEDA como ela mesmo batizou e deixou a população indignada. Como vês, Pedro, nem todos estão preocupados com a crise, mas também, porque um presidente ou um governador se preocuparia se ao deixar o cargo já conta com uma aposentadoria vitalícia?

Falando em aposentadoria, vistes como melhoraram o atendimento do INSS? Diminuiram o tempo de atendimento e concessão da aposentadoria. Uma maravilha, só falta, agora, eles melhorarem o salário pois este, bem, nem quero falar, fica sub-entendido.

Tantas coisas, Pedro, que a boca seca e preciso de água que está cada vez mais cara, mas para nosso alívio a NASA está com um projeto revolucionário que acabará com os problemas da falta d’água. Vão bombardear a lua para ver se ali onde há grande concentração e hidrogênio existe água para que lá possamos morar, criar uma nova civilização.

Gostaste da idéia? Eu gostei

Vou aproveitar os R$ 465,00 que receberei todo mês assim que me aposentar e alugarei um apartamento no térreo, bem perto do primeiro poço que furarem,  de frente, bem de frente prás estrelas e ouvir Raul, Coldplay, Cachorro Grande, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Pink Floyd e tantos outros que lá poderão me fazer companhia.

Abraço e até.

1 de fevereiro de 2009

Carta aberta a Camila

Se a porta não puder ficar aberta,  feche-a.

Gato e cachorro e rato e mosquito e moscas e pernilongos e piolhos e traças e cobras e lagartos tem em toda parte, temos que conviver  e volta e meia engolir um sapo;
Outro dia dei ração para os gatos e fui na fruteira, quando voltei tinham comido a ração, derrubado o lixo da cozinha e mordido o pão, único, que deixei sobre a mesa;
O Fredi e o Mimoso comem tanto que as vezes, e tu ja presenciastes, vomitam no canto, no meio, no canto e no meio da sala e eu tenho de limpar;
O meu horário só não é maluco porque eu escolhi-o. A loja abre as 8:30 e eu chego as 8:00; a loja fecha as 19:00 e eu saio entre 19:20 e 19:45h. Devo ser maluco?
Meu dia de receber é no 5º dia útil de cada mês e invariavelmente o dinheirinho está lá no banco. Não são dólares como os teus e eles nem me pagam casa comida e carro, só um milhão por mês;
Também, se me pagassem no 6º dia útil eu nem ligava;

Na verdade eu poderia contrapor todos os argumentos que apresentastes , um a um e tu, lógico, poderias contrapô-los com outros argumentos, mas e daí?  Sairíamos do lugar? Chegaríamos a algum lugar? Seria ponto contra ponto, opinião sobre opinião e a “lenga lenga” se estenderia.

Sempre digo às minhas  “sub-alternas” na Loja que em caso de dúvida o que vale é o artigo primeiro ou seja; “O chefe sempre tem razão”

É evidente que contigo não vou usar deste artifício, mas vou, primeiramente, apelar para o bom senso, para a tua autocrítica, para a tua análise nua e crua de todos os fatos desde o momento da concepção, passando pela elaboração e indo até a execução da idéia.
Qual idéia?
” ” Viajar para EUA, trabalhar, estudar inglês, conhecer outros países, adquirir cultura, viver. ” “

Penso que pai, mãe tem obrigação de ajudar os filhos naquilo que eles necessitam, nunca me furtei a isto e se for preciso, deixo de tomar a minha SKOL para ajudar uma ovelha desgarrada que precisa de ajuda. Mas se tu a ajudas, colocas ela num caminho por ela escolhido, e ela andou poucos passos de uma caminhada que sabia, sabemos, não é fácil e já quer desistir porque a maçã que a cobra ofereceu a Eva, concominada com Adão, não é fugi. Isto é muito pouco. Comi muita maçã argentina antes de conhecer bem as maçãs e saber que a Fuji é muito melhor. Mas gosto é gosto e isto também não quero discutir.

Tanta metáfora para te provar que precisas refletir melhor, pensar sobre a situação por que estás passando e levar em conta que tu não estás ali em Estrela ou Lajeado ou Porto Alegre,  de onde podes pegar um bus ou até mesmo uma carona para voltar para casa.
Se querias viver e crescer aprendendo outras culturas, esta é a hora e, pessoalmente, acho que precisas encarar de frente e não fugir usando de pequenos dissabores que a meu ver são contornáveis.
Nós falamos que estamos contigo, que te ajudaremos, que assinamos em baixo, mas colocamos aqui, nesta carta, o que estamos sentindo e julgamos que amanhã ou depois verás que ficar e encarar, fechar um olho aqui e/ou outro ali, foi a tua melhor escolha e que esta foi a derradeira experiência para o teu crescimento.

Nós te amamos e estamos aqui, logo atrás/na frente desta tela informatizada que muitas vezes reflete a tua imagem, linda imagem (também, com um DNA destes)

PS: Já dizia o poeta: “Filhos melhor não tê-los, mas se não tê-los, como sabê-los…”

28 de maio de 2008

Uma carta aberta ao meu amigo Pedro

Caminhando de um lado a outro do bairro desta nossa cidade interiorana, Pedro, onde o predomínio de pessoas de origem alemã já não se percebe mais, bate-me aquela saudade dos tempos idos em que o maior perigo do trânsito era o atropelamento de um sapo ou um gato, por aquela carroça que usávamos nos domingos para passear nos parentes/amigos distantes (como eram boas as frutas que comíamos nas copas das frutíferas, que subíamos com muita destreza).

Olhar a rua do colégio em que estudava (que já sofreu inúmeras reformas) asfaltada, cheia de quebra-molas, casas e edifícios se acotovelando, faz lembrar-me aquela estrada de chão batido na qual corríamos a brincar de “Pega-pega”, jogar bola e deixar nossas roupas naquele estado propício para comercial de OMO sabão em pó na televisão. A rua já não se chama mais “Rua Seca”, parece que já tem até saneamento básico.

É incrivel, Pedro, mas aquelas roças que atravessávamos, pulando as cercas dos potreiros e infiltrando-nos mato adentro até chegar ao moínho, que ainda hoje existe, (te lembra daquela vez que ficamos a olhar a roda d’água e a serra-fita e nos esquecemos do tempo?) onde comprávamos a farinha de milho que a mãe usava para fazer pães para a família de seis filhos, foram urbanizadas e por onde se olha tem ruas asfaltadas, casas, comércio, indústrias, creches, praças, academias de ginástica e até um cemitério brotou naquela área em que andávamos de bicicleta.

Sabe, Pedro, aquela propriedade rural não se precisa mais fugir dos quero-queros como na época que o colégio nos obrigava oportunizava a visitar em outubro, no dia das crianças, fazendo piqueniques inesquecíveis, nos quais brincávamos do raiar até o pôr do sol e nos jogávamos, volta e meia, no arroio, escondido dos professores/responsáveis por aquele bando de capetinhas? Transformaram-na em um grande loteamento popular para abrigar os trabalhadores vindos de outras cidades e até os da nossa, a procura dos empregos calçadistas.

O nosso bairro, Pedro, está transformado.

As casas não são mais aquelas feitas de madeira com uma cerquinha branca e um belo jardim à frente e uma horta orgânica nos fundos. Muitas grades, Pedro. Muitos controladores, muitas câmeras acompanhando os transeuntes.

O comércio abandonou o velho e bom caderninho, fiado que deu lugar aos carnês controlados por computadores interligados na grande rede.

E as pessoas, Pedro, já não as conheço mais… Tem gente de todas as raças, credos e cores.

Já não posso mais sair a noite caminhando pelas ruelas escuras observando a lua e as estrelas como fazíamos.

O nosso bairro, Pedro, está transformado e é isso que me leva a devaneios e conceitos que não se definem. Ver a cidade mudar desta forma e sentir que eu mesmo transformei-me externa e internamente, faz lembrar-me dos nossos sonhos, das nossas espectativas e das ações que impetramos na conquista deles.

É isso, Pedro. Quando aqui voltares e perceberes que o que falo é real, talvez nem a mim reconhecerás, tantas mudanças, Pedro, pois tudo acaba onde começou

Esta carta missiva foi escrita baseada em fatos reais e sua postagem foi incentivada pela Lunna que anda surpeendendo em seus blogs.

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