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Cartas sem selo
Um dos meus textos mais lidos é este aqui e quando vi a idéia da Suzana e da Lunna, senti logo que seria um sucesso.
Nesta segunda-feira, estarei no Cartas sem selo, venham ver ler…
Carta aberta do meu amigo Pedro
Precisamos de amigos.
Foi o que o Pedro me disse naquela carta que mais uma vez ele me enviou, e continuou:
É Paulo, precisamos de amigos, mas não de amigos colegas de trabalho que isto temos aos montes, nem de colegas de academia, do futebol sete que as vezes jogamos, do estádio quando o nosso time joga no domingo, nem de amigos que fizemos no prédio que ora estamos morando, nem de amigos do orkut, do facebook, do twitter, nem de amigos do restaurante que nos dão a melhor fatia de pizza, nem de amigos que nos ajudam a trocar o pneu furado, nem de amigos que precisam mais de nós do que nós deles. Precisamos de amigos que nos vejam, realmente, de um modo diferente, que nos valorizem, que saibam o momento certo de falar ou o de ouvir, que lamentem, sinceramente, quando nós lamentamos, que tenham a percepção de nossas necessidades, que nos auxiliem na solução de problemas, que não tenham interesses ou segundas intenções quando nos ajudam, de amigos verdadeiros.
Eu sei, Paulo, que parece que estou delirando, que estou doente, com febre, tentando encontrar coisas, pessoas que não existem, mas não perco as esperanças. Sei também que o mundo está prestes a desabar e acabar em preconceitos, terremotos, dilúvios, pragas, pestes, drogas, sexos, guerras, mas antes disto tudo acontecer quero ver se encontro um amigo que me aconselhe, que me mostre os caminhos ou mesmo que seja fiel como o Hackiko, um filhote de cachorro da raça Akita, que contracena com Richard Gere e Joan Allen no filme Sempre ao seu lado que acabo de assistir e que acendeu em mim todos estes pensamentos sobre amizade. Amizade verdadeira.
Não vou te contar o filme, Paulo, mas vou recomendá-lo. Assista, tu vais gostar.
Abraço e vê se me respondes…
Claro que eu te vi
Chovia, o bailado dos guarda-chuvas no seu começo, as poças d’água se formando, as pessoas andando devagar, algunas correndo e tu na calçada do outro lado da rua com aquela capa de chuva transparente e o guarda-chuva que compramos em Estocolmo.
Caminhavas despreocupada falando ao celular e te assustastes quando percebestes-me, parado no trânsito engarrafado. Confesso que não te vi num primeiro momento pois os vidros do carro estavam fechados e eu conversava com a Sheila que me acompanhava.
O sinal abriu, segui em frente e ai sim te senti. A maneira como caminhas, os olhos castanhos, os cabelos loiros, o teu sorriso mesmo nesta situação do tempo chuvoso, via-se que estavas feliz.
Só mudastes a expressão quando me vistes. Não sei o que pensastes, mas claro, claro que eu te vi, e todo passado em segundos manifestou-se na minha memória e a saudade foi o sentimento predominante.
Claro que eu te vi, mas disfarcei para não prolongar esta história inacabada que já acabou.
O carro seguia, a chuva molhava, o pensamento insistia nas suas incursões sobre o passado, mas tua caminhada em sentido oposto ao meu nos mostrava toda a realidade.
O sinal fecha, breco o carro e o diálogo com a Sheila recomeça.
Claro, claro que eu te vi…
Resposta de Pedro às cartas de Paulo
Estou respondendo as cartas, Paulo, que nem mesmo sei se foram endereçadas a mim, pois na época, nossa turma era formada por mim, por ti, a Maria Cristine, a Andréia e o Pedro (segundo – como o chamávamos). Será que não eram para ele? Bons tempos, Paulo, mesmo depois de quando completamos o “primário e saímos do Colégio Estadual e nos separamos da Maria Cristine que foi estudar em outra cidade. Também, filha de professora, tinha de estudar em colégio melhor… A propósito, cá prá nós e só entre nós, já escrevestes um artigo no teu blog sobre Maria Cristine ela, a primeira namorada? Desculpe a indiscrição!!
Gostei de relembrar, mas comparando com hoje, nossa vida, nossas escolas, nossas cidades, nossos governos, vejo um grande abismo.
O trâsito não anda. Cada vez mais carros, transporte coletivo caótico, cada vez mais pessoas e os congestionamentos GIGANTESCOS. As escolas um caos. A educação tomou rumos que não tem volta. Os pais deixam nas mão dos professores, que mal preparados e mal remunerados e sem condições de trabalho, lavam as mãos. Os alunos fingem que estudam, os professores fingem que ensinam, os pais fingem que está tudo bem e o governo, bom, os governos fingem que governam.
Estás me achando cético? Pessimista? Propagandista do caos? Releve, Paulo. Tem coisa muito pior. Se não melhorarmos a educação nada melhorará. E olhe que nem falei das drogas, o crack rola livre nas ruas, em frente as escolas e até dentro delas; dos bandidos e criminosos que a cada dia que passa tornam-se mais poderosos; dos políticos que perderam a vergonha e se locupletam sem esconder, criam CPIs, investigam, os menos podres procuram os podres dos mais podres que encontram mais podres dos pretensos menos podres e tudo fica por isto mesmo.
É, Paulo, o realismo nos choca, nos constrange.Sinto saudades de quando, como diz o poeta, “éramos felizes e não sabíamos”.
Outro dia recebi um e-mail do Renato, formou-se médico, cirurgião plástico e mais tarde, pelo msn confidenciou-me que nunca ganhou tanto dinheiro fazendo reparos no corpo das pessoas (principalmente de mulheres). Vistes, nem tudo está perdido, pelo menos 2% da população ainda leva uma vida decente, podendo fazer cirurgias plásticas sem depender das filas do SUS.
Estou me alongando. Poderíamos nos encontrar qualquer hora (como diz o Chico põe meia dúzia de Brahma prá gelá…). Venha visitar-me, mas não já, pois aqui estamos de quarentena, são algumas doenças estranhas e inéditas que insistem em atacar novamente. É a meningite que vai e volta, a febre amarela que pensei estar extinta e agora a gripe suína ou a gripe “A” como alguns preferem, que faz com que muitos andem de máscara e lavem as mãos seguidamente.
Observe os noticiários televisivos, Paulo, quando os casais dos jornais das notícias pararem de falar na crise financeira, na crise social, na crise política, na crise existencial da cadelinha Zuzu da apresentadora Tété, na crise, na crise, na crise, venha, mas com cuidado e rápido e sorrateiramente porque o mundo pode ter acabado…
Abraços otimistas e até breve.




Mais uma carta aberta ao meu amigo Pedro
Só tu Pedro para leres e releres estas minhas cartas, missivas, que repetidas vezes te envio. Desde sempre aprendemos a expressar, a externar e dividir com quem estivesse disposto a nos ouvir os sentimentos que se alojavam no nosso coração e no nosso cérebro.
Quando ouço o Chico e leio a letra composta por ele e pelo Francis Hime – Meu caro amigo – é que percebo que muitas novidades que queria, aqui, te contar, não são tão novidades assim e que muitos fatos que hoje estão acontecendo lá fora, perto dos meus olhos ou longe, até onde a vista, as Tvs, as redes sociais alcançem, só se repetem em forma de ciclos, pois o futebol ainda centraliza as atenções, o samba e o pagode e o sertanejo dominam os gostos musicais da população, as falcatruas e a corrupção ainda impera e os políticos legislam cada vez mais em causa própria. Ladrões na prisão? Só os de galinha, os pobres ou os que não conseguem um bom advogado, ou os que preferem ficar ali, comendo e dormindo de graça e comandando seus impérios de contrabandos e drogas via celulares. Ah caro amigo Pedro, as drogas são um capítulo à parte e não convém externar por escrito o que penso sobre isto, neste momento.
Agora veja, em breve teremos eleições para presidente, governador, deputados e senadores. Os debates já começaram e nenhum candidato se expõe, uns ajudam os outros e não há enfrentamento. Parece-me que desta vez nosso presidente será uma presidenta. Está mais preparada, vem com um bom aval, vai continuar as políticas sociais do seu antecessor (um metalúrgico), mas parece que algumas pessoas não conseguem aceitar esta mudança e querem mudanças maiores para pessoas que trarão o passado de volta, que nunca conseguiram convencer, sei lá. Vamos esperar, Pedro.
Não posso me despedir sem falar da Brahma. Sim, a brahma pintou todas as suas latas de vermelho e agora tem uns e outros dizendo que é moda, que é a tendência, que a cor vermelha predominará sobre as cores tricolores, que tudo já começou em São Paulo, que vai se espalhar pelas américas e vai alcançar o mundo. Espero que não, espero que tenham tomado todas e que seja apenas uma tendência etílica.
Por fim, Pedro, o clima aqui está muito bom, aquele friozinho que até nos brindou com neve e nos deixa encasacados, encapuzados, sentados do lado do fogão à lenha, tomando chimarrão, comendo brigadeiros, tomando chocolate quente, enrolados em cobertores, próximos às pessoas, solidários aos necessitados e felizes por viver e poder manter estes contatos mesmo que, assim, tão distantes…
Abraços.