Justiça com as próprias mãos
Dormia o sono dos justos, na cama, em seu quarto, no andar superior da casa. O quarto arejado era silencioso e aconchegante. Só dormia, não sonhava nem ouvia os pássaros nem os estranhos sons que vinham do outro lado da rua.
Sirenes, carros de polícia, uma multidão de curiosos, os bombeiros, pessoas desconhecidas, de outros bairros, amigos, vizinhos e familiares.
E ela lá, apagada, sem nada ouvir sem presenciar aquelas cenas que aconteciam…
Um cerco estava sendo preparado pela polícia. Ninguém poderia chegar mais perto. Acesso somente para a polícia e os que ela autorizava. Os curiosos intrigados, jornalistas, câmera de TV focando, transmissões ao vivo sendo preparadas.
E ela lá, apagada, sem nada ouvir, sem presenciar aquelas cenas que aconteciam…
A porta da casa arrombada, os móveis revirados, o investigador observando o corpo que jazia na porta da cozinha. Muito sangue.
A multidão pressionando os policiais por notícias, os repórteres usando de subterfúgios para ter acesso, o cão uivando, prostrado na escada que dá acesso ao andar de cima
E ela lá, apagada, sem nada ouvir, sem presenciar aquelas cenas que aconteciam.
Degrau por degrau o investigador sobe ao segundo andar a procura de explicações ou novos fatos que possam lhe auxiliar. No corredor alguns livros espalhados, um telefone celular, um quadro de Miró e uma faca ensanguentada. A porta do quarto aberta, uma caixinha de música (ainda tocando Danúbio Azul de Strauss) o chuveiro no banheiro a soltar água provocando o som de uma cascata e um corpo estirado na cama, uma arma na mão e a marca de tiro na testa.
E ela lá, apagada sem nada ouvir, as sirenes, os policiais, a multidão indignada, os repórteres, as câmeras, os detetives, a valsa, a água em forma de cascata, os pássaros e o cão a uivar.
Só queria dormir o sono dos justos que fazem justiça com as próprias mãos.



