Artigos da categoria ‘Acredite se quiser’
A inveja mata, ou acaba com o que está certo
Recem casado, Heitor ainda vivia sob os efeitos da “lua de mel”. Refletia e pensava e se beliscava para ver se estava acordado, para ver se não era apenas um sonho. E não era.
Luísa dissera o sim perante o padre, assinara os papéis diante do juiz e prometera cumplicidade com o Heitor “até que a morte nos separe”.
A viagem ao nordeste foi maravilhosa, os pontos turísticos visitados, a culinária, o sol, o mar e, principalmente, o hotel.
Heitor amava Luísa e Luísa amava Heitor…
Era um química invejada (inveja boa) pelos amigos e, na volta, as visitas eram constantes. Vieram o Lucas, o Renato, a Eloísa, o Fred, a Lúcia, o Carlos e até o Fernando e foi o Fernando, amigo desde a infância, que trouxe a “bomba”
- Estupraram a minha irmã!!!
Que notícia. Luísa ficou chocada, o Heitor nem tanto, pois conhecia a Ivete a tempos e sabia dos seus hábitos, amigos, lugares que frequentava, festas que fazia e ainda lembrava do desespero do Fernando e dos seus pais quando ela desapareceu por dez dias em busca de aventuras que “fizessem a sua cabeça” e que por fim ela ligou para o celular do Heitor para que a buscasse lá em Santa Catarina, na praia do Rosa. Até hoje esta “amizade” entre os dois não fora explicada pelo Heitor. (nem a Luísa sabia de nada)
- Está hospitalizada, machucada, sofrendo muito e a polícia já tem alguns suspeitos.
Heitor estranhou Fernando desde que chegara, estava com o semblante fechado, não sorria e parecia que tinha algo a dizer mas não dizia, até que:
- Os suspeitos são cinco: Fulano, Beltrano… e tu Heitor. Assim, direto, sem delongas.
A reação da Luísa não preciso nem descrever e o Heitor, indignado, proferia palavrões ofendendo até a 5ª geração dos que o acusavam.
O clima ruim estava instalado, não precisava ser meteorologista para saber que raios e trovões se faziam presentes n’aquele espaço isolado. Luísa ligou os fatos, o estupro ocorrera a dois dias, naquela mesma noite em que Heitor se atrasara devido ao congestionamento e a um pneu furado, mas Heitor jurava inocência.
Fernando, confuso, despediu-se e deixou o casal naquela situação. A lua de mel estava prestes a acabar e muita explicação seria necessária.
Heitor amava Luísa, Luísa amava Heitor.
Outro dia encontrei Heitor no supermercado, a noite, sozinho e descobri que ele, realmente, não estava envolvido do estupro, mas com toda aquela confusão o seu casamento não era mais o mesmo. A lua de mel por certo já acabou.
Porque ninguém quer viajar nos vagões vazios?
Os trens partem nos trilhos paralelos e há poucos vagões vagos.
Parece que todos estão superlotados de pessoas loucas para chegar ao seus destinos.
Pessoas, loucas, destinos.
Tudo parece confundir-se e a ordem dos vagões respeita o alfabeto ou as necessidades, ou os sentimentos, ou a fragilidade, ou a importância de cada um.
Almas vagam no primeiro vagão a procura de suas gêmeas o que é dificultado pela alta velocidade do trem que voa e confunde os pensamentos delas. Apaixonados são encontrados no segundo vagão que miram o horizonte com os olhos de quem mira um prato de tiro ao alvo.
Há vagões vagos e neles ninguém quer viajar.
No terceiro vagão, totalmente lotado, estão os narcisistas que pensam que nós não sabemos quem eles são. E há os curiosos, os desatentos, os inconsequentes, os presunçosos, os vingativos , os lerdos, os corruptos, os inescrupulosos.
O trem segue sua trajetória e de estação em estação renova seus passageiros que descem e sobem por suas escadas minúsculas, adentram a porta em busca de bancos, de diálogos, de amizades, de reconhecimentos, de glória, de prazeres, de sucesso ou de prestigio e por vezes nada encontram, viajam ensimesmados num cantinho que se lhes restou, com o rosto enfiado no jornal de ontem que alguém por ali esqueceu.
O trem anda e anda e os passageiros se renovam. Já não os reconheco mais. E les se misturam no primeiro e no segundo e no terceiro vagão, mas e por que nos vagões vagos ninguém quer viajar?
Última parada.
O maquinista já acionou os freios e o trem, suavemente, desliza por sobre os trilhos e vai parando, parando, parando…
Todos descem vagando para o leste, norte e sul deixando pra trás as lembranças da viagem: alguns pensamentos inconsequentes, as idéias trocadas com um desconhecido, o olhar discreto disparado em direção àquela morena, os rastros, os cheiros e odores como daquela moça de vestido vermelho cujo perfume suave nos fará lembrar dela por muito e muito tempo, a bela paisagem que ficará em nossa memória.
O trem de nº 1177 parte em direção a central e agora, por motivos óbvios, todos os vagões estão vazios, mas isto não responde a minha pergunta:
Porque ninguém quer viajar naqueles vagões vagos?
Operário na construção
Garimpando palavras nas minhas andanças, tropeço numa cartomante que diz para continuar construindo.
Eu??? Construindo???
Minhas obras são cimentadas com porções de inspiração misturadas a quatro mãos com a solidão dos poetas e pequenas partes da cal virgem de ilusões. Mãos calejadas desenham as palavras silenciosas em papel manteiga e calculam o custo da construção, do macacão de jeans até o gramado verde circundado por extensas calçadas que serão frequentadas por leitores vorazes em busca de companhia.
As obras são cansativas e um pouco de suor de todos que participam escorre nas páginas branquinhas do livro ainda não lido ou é absorvido pelas páginas amareladas e marcadas com a impressão digital de muitos que passaram e repassaram os textos ali escritos.
O dia acaba. A construção invade a madrugada e a obra vai tomando forma, palavras sobre palavras moldam a parede interna, mas portas e janelas são deixadas para que se tenha saídas estratégicas.
Os braços do operário acusam cansaço, o suor impregnado na pele e absorvido pelos panos das roupas que veste imploram por água e o banho lava tudo corpo, alma e sentimentos.
Os dias se sucedem, acaba-se uma obra e outra já está ali, nos esperando para ser arquitetada, planificada, transportada para os papéis ou para a virtualidade.
Parece que as cartomantes sempre tem razão…
Ainda faltam 364 dias para acabar o ano e para entendermos as mulheres
As duas ali, na esquina, paradas, conversando, gesticulando, as vezes se tocando, uma vez se abraçaram, as vezes falavam alto, até uns “uis” se ouvia, outras, falavam tão baixo que não sei se elas mesmo entendiam, parece-me que eram amigas de a muito. A loira, bronzeada já com cor de meio de verão, usava um vestido rodado, azul com alguns detalhes em branco, de alças, cabelos preso com um prendedor prateado, sandálias com salto anabela, era a que menos falava, era a que mais ouvia. A morena, cabelos curtos, usando uma bermuda de brim e uma blusa “tomara que caia” branca e uma sandália havaiana, ou será que era ipanema?
Falavam e sorriam e trocavam olhares e falavam e gesticulavam neste primeiro dia do ano.
Observava-as da sala do apartamento, sentado perto do janelão de onde não me viam, mas pouco entendia dos diálogos que travavam. As via, mas não as ouvia. Do que será que elas falavam? Previsão do tempo? Economia? Tragédias do reveillon? Eleições? Camada de ozônio? Músicas? Trabalho? Não, não poderia ser. Fui até a sacada e discretamente espichei o ouvido, mas foi em vão. Uma terceira pessoa se aproxima, cumprimentam-se, a morena gesticulando e falando e sorrindo e fazendo as outras duas sorrirem e centralizando as atenções.
Percebi que me perceberam, permaneci ali, na sacada, mas elas, meio que perturbadas pela invasão de suas privacidades em meio a calçada da esquina, nas sombras da árvore, atravessaram a rua, sempre falando, sempre gesticulando, sempre sorrindo, em direção ao centro da cidade e eu as acompanhei até onde a minha vista as alcançava e até que três pontos minúsculos se perderam no horizonte.
E o que falavam? E o que conversavam? Sei lá, não consegui entender, mas também… é só o primeiro dia do ano e temos mais 364 dias para entendê-las…




Deus não mata mas castiga,(será que é mais uma das “Leis de Murf?)
E mais uma vez eles foram. Três horas da manhã e o Chevete já estava pronto: com o tanque cheio, os pneus calibrados, as capas sobre os bancos, com os tecidos rasgados, devidamente colocados e o reflexo da luz da lâmpada fluorescente pendurada no poste da rua indicava que o carro estava limpinho. A cara deles era de sono, mas iam felizes em busca do lucro que muitos buscavam, mas nem todos conseguiam.
A viagem começa e a distância até o Paraguai é bem grande, por isto o casal se reveza na direção. A lista de encomendas é revista, câmera digital, notebook, pneus, pendrive, antenas, bebidas… As compras são feitas, é um dia bem cansativo, de loja em loja a procura do produto e do melhor preço. Cálculos são feitos para não passar o limite permitido (em dólares), mais uma conferida na lista e ela vê que é possível comprar aquele vestido lindo que viu na vitrine da loja (mulheres!) experimentar é preciso e aí a dúvida surge: qual dos dois vestidos levar? Dúvidas que não se acabam assim, simplesmente, pois pelo valor da cota daria para levar só um, mas como escolher se os dois são lindos e serviram tão bem? A idéia de levar o vestido no corpo logo surge e é o que é feito. Um no corpo, outro no pacote com nota fiscal da loja.
Carro carregado, atravessam a fronteira, apresentam as notas fiscais e voltam para a sua cidade.
Após o retorno e a distribuição dos produtos encomendados, ela resolve colocar os vestidos novamente para mostrar ao marido, à mãe, à amiga … e percebe que um deles está muito comprido (deve ser aquele que veio contrabandeado sem nota fiscal).
Solução: recorrer a vizinha costureira, medidas tiradas e o conserto estaria pronto no dia seguinte.
E neste comércio meio clandestino permitido pelo governo e muito utilizado pelos cidadãos brasileiros para ajudar no orçamento doméstico “a lei de Murf” se manifesta. – Se a coisa começa errado tem tudo para terminar errado…
Ela retorna a casa da vizinha para buscar o vestido e a vizinha aos prantos comunica:
-Fomos assaltados, levaram todo meu material de costura, a máquina e inclusive o teu vestido.
Então ela ri, ri e ri e não consegue parar de rir da situação. Correu todo o risco, esforçou-se para trazer o vestido do Paraguai, trouxe-o meio escondido das autoridades e agora não sabia nas mãos de quem o dito cujo foi parar.
Tá. Daí eu me pergunto, viajar quilômetros ao Paraguai e lá comprar um vestido para ser roubado aqui no Brasil, prá que?
Claro que ocorrerão outras viagens e aí, quem sabe, o vestido poderá ser recuperado, mas eu recomendo comprar vestidos nas nossas lojas brasileiras…