A Páscoa e nossos pecados
As vezes fico imaginando o futuro e as pesquisas que farão sobre o nosso tempo daqui a 100/200 anos.
-”Olha só o que descobri: reuniam-se em um prédio de concreto, arredondado, alguns cobertos, e bem no centro tinha um gramado onde alguns corriam de lá para cá atrás de uma circunferência de couro”;
-”Observem estas imagens: parecem veículos de transporte, andam no chão e numa velocidade muito lenta (160 km/h)”.
Muitas coisas interessantes e profundamente inéditas poderão ser estudadas. Tem os cemitérios, os postos de gasolina, a dança do créu, as praias, mas como ainda não existe o teletransporte, ou a viagem através do tempo (será que não existe mesmo?) não consigo ir até o futuro e fico só na imaginação, continuando a escrever sobre o passado e o presente.
Dia 23 de março será o Domingo de Páscoa, precedido do sábado de aleluia, da sexta-feira santa, enfim da semana santa.
Na minha infância/adolescência estes dias santificados eram muito mais considerados datas religiosas do que hoje em dia em que a maioria do povo aproveita o “feriadão” e nem sabe o real significado da Páscoa.
Morando no interior do interior, numa época em que o consumismo não era tão desenfreado e que fabricávamos nossos próprios brinquedos com sucatas, a sexta-feira santa era sagrada. Não se podia falar alto, subir nas árvores frutíferas para degustar os frutos, correr ou jogar bola nos potreiros (campo cercado onde se prendia o gado). A molecada jasia prostrada aos quatro cantos da casa ou da área que englobava a propriedade.
Tudo era pecado. Nem tudo, ou, nem para todos tudo era pecado.
Os pais do Milton, meu amigo de infância, tinham uma enorme propriedade agrícola e de pecuária, onde todos os dias ordenhavam as vacas e as soltavam no potreiro, mas nas sextas-feiras santas deixavam o gado confinado nas estrebarias (local onde o gado ficava de noite ou quando chovia e era alimentado) e liberavam o campo, onde, imediatamente, colocávamos as golerias já fabricadas, demarcávamos o gramado e após a escolha dos times, em média 15 para cada lado, jogávamos, jogávamos e jogávamos.
As vezes nem almoçávamos, as vezes o jogo iniciava após o almoço, as vezes já estava escuro, anoitecendo, e continuávamos a jogar.
Por alguns anos nos encontrávamos na casa do Milton, nas sextas-feiras santas e nossos pais nem sabiam que era para jogar futebol (qualquer movimento mais brusco era proibido)
Era uma época de restrições mas também de procura de alternativas e quando encontrávamos alguém com uma visão mais liberal dos fatos, como os pais do Milton, em quem podíamos nos apoiar, chegávamos a conclusão que muitas coisas ainda, e sempre, poderiam ser alteradas e que nem todos os pecados são tão pecados assim…
5 Comentários
Peça perdão meu filho, peça perdão…
Pecado não existe! O que existe é tentativa de aprisionar o desejo, o que nunca poderá ser feito plenamente.
E hoje? Hoje Páscoa é só CHO-CO-LA-TE!!! Bommmmmm!!!
Mas, sinto falta dos momentos reflexivos sobre a Paixão de Cristo. Sinto mesmo! As pessoas faziam uma catarse sobre um muita coisa e reviam conceitos, pelo menos por um dia que fosse.
Beijos, moço.
pecado, como qq outro conceito, é relativo. prefiro acreditar que pecado seja a quebra dos valores morais e éticos.
minhas lembranças infantis da sexta da paixão são muito interessantes. tudo era triste neste dia. como se a natureza se entristecesse. muito mais tarde descobri a força dos dogmas e o qto eles podem interferir no sentir da gente.
seja como for. é gostoso lembrar da infância, né?
beijo.
Oi Paulo.
Eu não sou cristã, então não entendo nada de Páscoa. Celebro os solstícios e equinócios e os ovos da Páscoa celebram a fertilidade na primavera – a Deusa tornando possível a vida e isso representa a alegria. É tudo que sei da páscoa.
Abraços meus


eu sou um pecador.