quinta-feira, 9 de julho de 2009

A mudança que realmente mudou

O caminhão de mudanças está partindo. Tudo está na carroceria. O roupeiro de seis portas, o fogão a gás, o sofá, a mesa de fórmica da cozinha, a televisão P/B, o rádio Sanio a luz e pilhas, algumas roupas que ainda nos restam, os instrumentos musicais. O motorista amarra a geladeira steigleder envolta por um cobertor para não arranhar. Os filhos correm ao redor da casa e do caminhão e até a casa dos vizinhos, felizes por mais esta mudança. Olhamos mais uma vez janela adentro e vemos que não há mais nada na sala, na cozinha, nos quartos. Toda casa está vazia. Os bens materiais já não representam mais nada àquela casa, restaram apenas as lembranças, como aquela noite em que nos reunimos ao redor da churrasqueira feita com tijolos velhos no fundo do quintal, eu, tu, o Amadeu, a Helena, o Valmor, a Laura, o Beto e tantos outros que nem lembro a cantar e a tocar (saudades dos Chorinhos). Nosso cavaquinho, o violão, o violino, a caixa de fósforos, as colheres e algumas cervejas. Corre-me lágrimas nos olhos e tento disfarçar, mas vejo que tu também assim te manifestas. Abraçamo-nos e deixamos para trás mais esta história que agora  ficará na nossa lembrança.

Seguimos o caminhão de carro (Chevette era carro?)chevette1. As crianças no banco traseiro  tentando segurar o Fredy (ou será que era outro gato?), tu ao meu lado olhando o horizonte e planejando o que viria, eu dirigindo e observando, pelo retrovisor, o que estávamos deixando para trás.

O caminhão se distancia um pouco, passam por nós alguns carros mas ainda o vemos, logo adiante tem um quebra-molas, apresso-me a tempo de ver o violino (que herdei do meu avô) caindo do  caminhão que freiou bruscamente, batendo no asfalto, saltando e batendo novamente e sendo atropelado pelo veículo que vinha logo atrás dele. Não sobrou quase nada. O Stradivarius se desintegrou. Paramos no acostamento e salvamos o que deu e que coube na sacola plástica com propaganda do Supermercado Real. O motorista do caminhão nada percebeu.

Tá certo que todos os acordes que eu tocava eram de ouvido, tá certo que nunca frequentei nenhuma escola de música, mas eu gostava de tocar, o Beto me acompanhava no cavaquinho, nossos recitais inundavam os lares dos nossos vizinhos no bairro, mas aquela relação não precisava acabar assim. Mas acabou.

Era a nossa quinta mudança, estávamos radiantes por poder melhorar de emprego, de casa, de cidade, de ares, mas com esta tragédia não contávamos.

Por muitos dias, semanas, meses, ficava escutando o som do violino no meu ouvido, que saia da minha cabeça, da minha memória e me deixava triste e feliz ao mesmo tempo, mas desde então nunca mais toquei nenhum instrumento musical.

E esta foi a derradeira mudança.

PS:// Este é mais um conto de autoria do proprietário deste blog. Qualquer semelhança com fatos verídicos pode ser mera coincidência//

Categorias: Pequenos contos
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5 Comentários

10 de julho de 2009

Pois é Paulo, as vezes algumas coisas consideradas “pequenas”(?) nos provocam mudanças verdadeiras. Na verdade, o violino não era pequeno existia sentimento ali… Quebrou, estragou e foi atropelado… Provocou mudança, mais que a mudança de casa e de ares.
Gostei muito do conto;) ótimo!
Abraço


10 de julho de 2009

Nossa, fiz a mudança junto com essa família Os detalhes estão tão bem descritos que senti a tristeza de perder o violino tb.

Parabéns!

Uma ótima semana.


11 de julho de 2009

Ahhhh, bom demais ler teus contos.. me trás uma nostalgia que nem sei de onde vem! rs
Ainda mais em tempos assim, de chuva mansinha no telhado!

Bom fim de semana! Senti saudades daqui.


11 de julho de 2009

Paulo, se M gostará eu não sei. Mas só a diversão de ver a cara dele de surpresa já vale muito. Quanto ao texto, gostei, bem escrito, parece que o leitor está lá, junto ao personagem. Mas não concordo com isso de textos fictícios não terem nada a ver com fatos reais. Tem que ter um fundo de verdade, não? Bjs e obrigada pelo comentário


14 de julho de 2009

Eu simplesmente amo a maneira como tu escreve e como coloca acontecimentos reais. Pra mim, tu vais ser sempre o melhor escritor da Rua Carlos Arnt! rsrsrsrs…


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