A morte do sr. Apólito
A história é trágica, mas como toda história trágica, esta também tem o seu lado cômico.
Na cidade tinham duas funerárias, pelo menos eram duas as mais famosas e de maior concorrência e uma delas era a de maior movimento.
Todos os dias, se não eram dois, pelo menos um velório/enterro acontecia. Caixão, velas, castiçais, flores, coroas de flores, pessoas chorando, conversando, tristes, familiares sentados em fila a espera dos pêsames e dois bancos grandes em frente a funerária impedindo o ir e vir dos pedestres na calçada. A polícia organizando o trânsito em frente, na avenida. O sr. Apólito, proprietário da funerária, sempre ali, prestando o seu bom serviço, água gelada, mais uma cadeira aqui, um ombro para chorar acolá… É ele quem preparava os mortos, punha-lhes o terno e o sapato “de morrer”, acomodava-os dentro do caixão, fazia o comunicado da morte através das emissoras de rádio, pregava nos postes da cidade o “aviso de falecimento”… Encerrado o velório colocava, auxiliado por seu filho Marcus, o caixão em sua Caravan preta e dirigia pacientemente até os cemitérios para o enterro.

E eis que, naquele dia fatídigo, o movimento foi todo transferido para a funerária de nº 2 e a do sr. Apólito permaneceu fechada, sem velas, sem flores, sem nada.
Vi num aviso preso ao poste: Â Comunicamos o falecimento do sr. Apólito… Está explicado. O dono da funerária morreu, vítima de um efizema pulmonar e os filhos o velaram na concorrência, exigindo todos os serviços a que tinham direito e que por anos e anos o seu pai querido prestara.
Não tinha muita gente no velório, o sr. Apólito era homem de poucos amigos, mesmo porque poucos queriam ser amigos do homem da funerária.
Pelas conversas no velório, os filhos não seguirão o ofício do pai e a funerária já está a venda ou o prédio será alugado para alguma loja de departamentos…
3 Comentários
Também não entendi…
Ao meu ver, ele foi velado no concorrente pq ele próprio, ajudado pelo filho, realizava todo o trabalho. O filho estava em um momento de dor, precisava ser amparado e não tinha condições de trabalhar.
Certo?


Eu juro que não entendi porque velaram o pai na concorrente, mas tudo bem. Grande abraço