sábado, 27 de junho de 2009

A experiência não tem preço e só pode ser extirpada pela morte

Caminho na calçada em direção ao nada e passo novamente em frente àquela casa verde.

Pintada com tinta à óleo verde, as paredes de madeira e janelas com vidros transparentes. Caminho pela calçada e deparo-me com aquela casa, de nº 1738, onde na varanda sentado está a experiência, que noto nos cabelos brancos, nas rugas do rosto, nos óculos fundo de garrafa e por vezes na bengala que auxilia no andar de Seu Milton, que já se tornou meu amigo das tantas vezes em que nos encontramos, eu caminhando pela calçada e passando pela casa verde de nº 1738 e ele sentado na varanda em sua cadeira de palhas, contemplando o infinito e meditando sobre o passado que se lhe parece tão distante.

Outro dia, no outro lado da rua, passei em frente a Clínica de fisioterapia e o Seu Milton saia do prédio auxiliado pela esposa. Esposas geralmente são mais novas e tem menos experiência que os esposos que têm menos resistência. Ela andava e se preocupava com ele que se amparava na bengala para atravessar a rua em direção a cadeira de palhas que o esperava na varanda da casa verde de nº 1738.

Sexta-feira pela manhã a grade de metal, bem alta, pintada de preta com um portão para ser chaveado, estava sendo colocada por aquela empresa metalúrgica, a pedido da filha,  que nem lá morava, por que tentaram assaltar seu Milton e levar a sua experiência em vez de compartilhá-la, levar a TV 17 polegadas, preto e branco, levar o último salário da aposentadoria que sacaram no banco, levar o sapato preto, bico fino que Milton guardava na cômoda do quarto, lustroso e brilhante, para usar no derradeiro dia, só para comprar drogas e alguns segundos de prazer como me disse ele.

Queria ter conversado mais com ele, quem sabe ainda conversarei, pois hoje passei, novamente, caminhando pela calçada e notei o vazio da cadeira de palha que estava solitária na varanda da casa verde de nº 1738 e ao lado dela, em pé, a esposa, parada, como que me aguardando para dar a informação de que Seu Milton fora internado com pneumonia no Hospital Geral, mas que tudo estava bem e que amanhã ele estaria de volta à sua casa, à sua rotina, ao nosso diálogo quase que diário.

A noite, na volta, passei por ali imaginando como seriam vazias as minhas caminhadas sem o sorriso, o cumprimento, o aceno do Seu Milton e as nossas rápidas conversas onde cada palavra dita vinha recheada de sabedoria e simplicidade e experiência.

Amanhã passarei novamente em frente a casa verde, pintada com tinta à óleo, e cercada por uma grande grade preta para proteger os cabelos brancos e as rugas e os olhos fracos da experiência que não acaba e que nem mesmo o mais completo dos larápios consegue roubar.

A experiência não tem preço e só pode ser extirpada pela morte…

Categorias: Pequenos contos
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7 Comentários

28 de junho de 2009

Vc tem total razão, a experiência não tem preço e é tão pouco valorizada na nossa sociedade… É uma pena!

Eu gosto dos velhinhos exatamente pela quantidade de coisas que eles viram e passaram.

Beijocas


28 de junho de 2009

E essa capacidade de olhar e enxergar as pessoas por vc passa, tem preço?

:) ))

Beijos, moço.


28 de junho de 2009

Paulo,

O ruim da experiência é só uma coisa: quase ninguém se interessa em aprender com a dos outros e prefere adquirir a própria. :(

Beijos


28 de junho de 2009

Concordo Paulo. As pessoas deviam aprender mais com os outros. Com certeza iam acumular muito mais conhecimento do que quando acham que sabem de tudo. Gostei daqui. Te recomendei lá no meu site, ok? Beijos!


28 de junho de 2009

E, um dia, você vai passar pela casa do seu Milton e só encontrará a cadeira vazia! Tomara que as pessoas que o conheceram também não fiquem vazias, e sim preenchidas pela sua experiência de vida.
Aquele abraço!


29 de junho de 2009

Gostei do conto… Muito bom! As pessoas deveriam valorizar o aprender com quem já viveu um pouco mais. Mas tem gente que prefere ignorar isso.
Abraço


30 de junho de 2009

Carissimo, nessas horas que se revela o poeta, o escritor. As pessoas “normais” são distraídas e perdem muitas coisas significativas. Lembrou-me Rilke agora (vou postar algo dele lá no T.I)…
Grande abraço e grata por esse instante singular. Deixou meus olhos mareados aqui.


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