quarta-feira, 17 de junho de 2009

A cadeira vazia

Se a cadeira estava parada no canto da sala vazia era por algum motivo.

Só ela, mais nada. Nada ao redor, nem mesa, nem estofado, nem estante, nem tapete, só ela, a cadeira em frente a janela aberta, como que a imaginar o movimento das folhas da jabuticabeira lá fora, o cachorro que corre atrás da bola jogada pelo Pedrinho, a colheitadeira mais ao longe, conduzida pelo João, no milharal, o trem movido a vapor que apitava bem distante e se arrastava morro acima sobre os trilhos da ferrovia, as nuvens escuras que anunciavam o cair da tarde.

A cadeira vazia que permanecia imóvel naquela sala sentia-se solitária, pois a pouco a casa era repleta de móveis, de pessoas, de sons que  misturavam-se e completavam-se.

A cadeira testemunhou muitos diálogos, muitas negociações, muitas brigas e reconciliações e brigas e reconciliações e brigas definitivas.

Talvez tenha sido este o motivo:  testemunha ocular, abrigo de um e de outro, ombro amigo no choro do desespero, da indignação, da esperança e da separação total.

Primeiro foi-se o João naquele Opala Comodoro preto em que de longe ouvia-se o uivar do cão e via-se o olhar tristonho de quem percebeu toda a situação, depois ela, levando consigo Pedrinho, o pen drive com as músicas e fotos de toda história e os CD’s dos Beatles que sempre escutavam.

A casa por meses ficou fechada, sem sons, sem gritos de crianças, sem cão correndo, sem pessoas. No jardim as flores que ela cuidava morreram todas, talvez de solidão, talvez de saudades. No pomar as frutas caídas ao chão e os milhos colhidos pelo pessoal da Associação.

Dia após dia via-se o abandono por todos os lados, até que o caminhão da transportadora carregou tudo: o quarto, os móveis da sala, as tv’s, o estofado, os vasos com flores, os quadros… A cadeira permanecia, ali, vazia e solitária, testemunha e cúmplice (sem culpa) de fatos e atos que, talvez, se repetirão assim que a propriedade rural for vendida e outros, homens, mulheres, crianças, vivenciem tudo novamente.

Se a cadeira estava parada em frente a janela, no canto ou no meio da sala, deve ser por algum motivo.

Categorias: Pequenos contos
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2 Comentários

17 de junho de 2009

Testemunha de vidas que por ali passaram, pena que não pode expressar o que viu, ouviu , sentiu…


19 de junho de 2009

A cadeira…e outros móveis também…se eles falassem!
Quanta coisa teriam pra contar.

Bom dia Paulo!


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