Arquivo mensal abril 2011

porKeeperCookie

O sonho da chuva

Tudo está preparado. As nuvens outrora claras e leves, agora escuras e pesadas. Os primeiros pingos caem, todos correm. Não há mais ninguém no paralelepípedo…a não ser eu…Eu que quero sentir de perto, que quero conhecer a chuva no seu íntimo.

Sinto tudo vazio, sinto-me leve, tenho vontade de voar. Parece que estou drogado, ou será que estou hipnotizado?  Nada vejo, mas sinto que somente existem eu e a chuva. Chuva em pingos passageiros que passam e deixam meus cabelos molhados, meu corpo encharcado…

Saio correndo para fugir, mas fugir de que se não vejo nada!!! Vejo sim, vejo meu sonho acabar, mas estou feliz. Feliz porque molhei o cérebro. O cerébro ficou limpo e agora está chovendo. Chovendo no meu interior…

Sinto tudo molhado…

Molhado e acabado…

porKeeperCookie

A mão esquerda

A porta dos fundos daquela casa sombria, com seus pinheiros orientais plantados em fila e enclausurados pelas fortes grades pintadas de preto e cujas setas de ferro apontam silenciosamente para o céu, batia,  movido pelo vento forte que soprava.

Um odor funesto penetrava nas narinas de quem aventurava-se a adentrar pela porta a vasculhar e a matar a curiosidade.

A casa estava com as luzes, todas, ligadas e mariposas bailavam ao redor da lâmpada na cozinha. Estava quente e a banheira transbordava água por conta de uma torneira não fechada, no banheiro. Um disco arranhado tocava na vitrola e repetia sempre o mesmo verso e som.

Na sala o odor aumentava e a suspeita de corpos estirados, no piso frio, aumentava.

Na frente da TV de 29′ cujo tubo de imagem estava quebrado e em meio aos cacos de vidro, uma caixa contendo lâminas com uma gota de sangue em cada, jazia e era dali que o odor partia, da coleção de lâminas com os sangue dos assassinados, cuja caixa foi jogada para fora de mais um episódio do Dexter.

Vermelho como sangue. Era sangue. Era muito sangue para pouca ladeira.

Misteriosamente.

porKeeperCookie

Focos de luz

Para todos os lados que olho, vejo e não vejo, observo e não observo, penetro e não penetro na mensagem da imagem que se esconde no fundo da gaveta, pra todos os lados que o olhar – datas marcadas.
Reformulando :   nada de gavetas,
está bem a mostra, claramente, lucidamente. Não. Não há gavetas. Calma!
Pra todos os lados o olhar e se esconde no fundo da gaveta, faz de conta, lucidez das datas marcadas… nao tem lucidez, não há datas marcadas…
Balde de tinta vazio, pincéis pincelam mensagens.
O relógio do tempo traçando partidas e chegadas,
badala, badala e avisa.

Ofertas:  lágrimas e sorrisos.
As malas recheadas de álbuns de retratos, autorretrato completamente sentir.
Ver e rever, ver e ver-se, preto e branco, colorido. As vozes conhecidas na sensação, tremores, pele eriçada…

Malas prontas pra viagem.

E do ver e rever ingredientes que fermentam e recriam e criam e são absorvidos…

Cartões-postais de antiga cidade.

Ruas, ruelas, becos.

O vestígio aparente por trás da porta do armário, trancado com a chave perdida. O que se esconde em pequenas caixas, ou no fundo das gavetas.
O outdoor da vida computadorizado, ocupando espaços que, se não, seriam abstratos. Com o céu escuro e em questão de segundos…
relâmpagos e trovões apavoram.
Madrugadas, gavetas e amor.

Ouve-se os passos no corredor, a porta entre, aberta entreaberta.

Mente à decoração das letras.
obviedades simulam conclusões,
letras se transformam
em palavras, e versos rompem toda máscara exterior.

porKeeperCookie

Escolhas

O corpo manifesta intenções que chegam ao nosso cerébro treinado a agir sempre com a razão.
O cérebro responde. A emoção não suporta as ordens.

A razão e a emoção se enfrentam e na arena o leão será vencido pelo gladiador, mas lá da arquibancada a indicação de negativo ou positivo decretará  o fim da história e outro leão e outro gladiador e outros homens se enfrentarão para o deleite de uns poucos e circo em substituição ao pão, de outros.

Sentimentos bipolares capitalizados petrificam vontades e ramificam matizes.

Quereres estrapolados invertem pensares.

Caminhos esculpidos na madeira de árvores seculares, derrubam obstáculos.

Seguir em frente ou voltar os olhos para um ontem que aprisionava? Razão ou emoção?

Existem escolhas…

porKeeperCookie

Poema curto I

Um pequeno infinito,
da sensibilidade como vício.
O sentido microscópico eleva saberes.
As palavras pensam,
e o ar que resta expelido é.
O que respira horizonte,
peles, arrepios e poros transbordam.
A nobreza do sublime sacrifício
inspiração particular,
e a palavra renasce
as entrelinhas da expansão.