Artigos de fevereiro de 2010

21 de fevereiro de 2010

Deus não mata mas castiga,(será que é mais uma das “Leis de Murf?)

E mais uma vez eles foram. Três horas da manhã e o Chevete já estava pronto: com o tanque cheio, os pneus calibrados, as capas sobre os bancos, com os tecidos rasgados, devidamente colocados e o reflexo da luz da lâmpada fluorescente pendurada no poste da rua indicava que o carro estava limpinho. A cara deles era de sono, mas iam felizes em busca do lucro que muitos buscavam, mas nem todos conseguiam.

A viagem começa e a distância até o Paraguai é bem grande, por isto o casal se reveza na direção. A lista de encomendas é revista, câmera digital, notebook, pneus, pendrive, antenas, bebidas… As compras são feitas, é um dia bem cansativo, de loja em loja a procura do produto e do melhor preço. Cálculos são feitos para não passar o limite permitido (em dólares), mais uma conferida na lista e ela vê que é possível comprar aquele vestido lindo que viu na vitrine da loja (mulheres!) experimentar é preciso e aí a dúvida surge: qual dos dois vestidos levar? Dúvidas que não se acabam assim, simplesmente, pois pelo valor da cota daria para levar só um, mas como escolher se os dois são lindos e serviram tão bem? A idéia de levar o vestido no corpo logo surge e é o que é feito. Um no corpo, outro no pacote com nota fiscal da loja.

Carro carregado, atravessam a fronteira, apresentam as notas fiscais e voltam para a sua cidade.

Após o retorno e a distribuição dos produtos encomendados, ela resolve colocar os vestidos novamente para mostrar ao marido, à mãe, à amiga … e percebe que um deles está muito comprido (deve ser aquele que veio contrabandeado sem nota fiscal).

Solução: recorrer a vizinha costureira, medidas tiradas e o conserto estaria pronto no dia seguinte.

E neste comércio meio clandestino permitido pelo governo e muito utilizado pelos cidadãos brasileiros para ajudar no orçamento doméstico “a lei de Murf” se manifesta. – Se a coisa começa errado tem tudo para terminar errado…

Ela retorna a casa da vizinha para buscar o vestido e a vizinha aos prantos comunica:

-Fomos assaltados, levaram todo meu material de costura, a máquina e inclusive o teu vestido.

Então ela ri, ri e ri e não consegue parar de rir da situação. Correu todo o risco, esforçou-se para trazer o vestido do Paraguai, trouxe-o meio escondido das autoridades e agora não sabia nas mãos de quem o dito cujo foi parar.

Tá. Daí eu me pergunto, viajar quilômetros ao Paraguai e lá comprar um vestido para ser roubado aqui no Brasil, prá que?

Claro que ocorrerão outras viagens e aí, quem sabe, o vestido poderá ser recuperado, mas eu recomendo comprar vestidos nas nossas lojas brasileiras…

18 de fevereiro de 2010

A inveja mata, ou acaba com o que está certo

Recem casado, Heitor ainda vivia sob os efeitos da “lua de mel”. Refletia e pensava e se beliscava para ver se estava acordado, para ver se não era apenas um sonho. E não era.

Luísa dissera o sim perante o padre, assinara os papéis diante do juiz e prometera cumplicidade com o Heitor “até que a morte nos separe”.

A viagem ao nordeste foi maravilhosa, os pontos turísticos visitados, a culinária, o sol, o mar e, principalmente, o hotel.

Heitor amava Luísa e Luísa amava Heitor…

Era um química invejada (inveja boa) pelos amigos e, na volta, as visitas eram constantes. Vieram o Lucas, o Renato, a Eloísa, o Fred, a Lúcia, o Carlos e até o Fernando e foi o Fernando, amigo desde a infância, que trouxe a “bomba”

- Estupraram a minha irmã!!!

Que notícia. Luísa ficou chocada, o Heitor nem tanto, pois conhecia a Ivete a tempos e sabia dos seus hábitos, amigos, lugares que frequentava, festas que fazia e ainda lembrava do desespero do Fernando e dos seus pais quando ela desapareceu por dez dias em busca de aventuras que “fizessem a sua cabeça” e que por fim ela ligou para o celular do Heitor para que a buscasse lá em Santa Catarina, na praia do Rosa. Até hoje esta “amizade” entre os dois não fora explicada pelo Heitor. (nem a Luísa sabia de nada)

- Está hospitalizada, machucada, sofrendo muito e a polícia já tem alguns suspeitos.

Heitor estranhou Fernando desde que chegara, estava com o semblante fechado, não sorria e parecia que tinha algo a dizer mas não dizia, até que:

- Os suspeitos são cinco: Fulano, Beltrano… e tu Heitor. Assim, direto, sem delongas.

A reação da Luísa não preciso nem descrever e o Heitor, indignado, proferia palavrões ofendendo até a 5ª geração dos que o acusavam.

O clima ruim estava instalado, não precisava ser meteorologista para saber que raios e trovões se faziam presentes n’aquele espaço isolado. Luísa ligou os fatos, o estupro ocorrera a dois dias, naquela mesma noite em que Heitor se atrasara devido ao congestionamento e a um pneu furado, mas Heitor jurava inocência.

Fernando, confuso, despediu-se e deixou o casal naquela situação. A lua de mel estava prestes a acabar e muita explicação seria necessária.

Heitor amava Luísa, Luísa amava Heitor.

Outro dia encontrei Heitor no supermercado, a noite, sozinho e descobri que ele, realmente, não estava envolvido do estupro, mas com toda aquela confusão o seu casamento não era mais o mesmo. A lua de mel por certo já acabou.

12 de fevereiro de 2010

As lembranças que nos perturbam

Sentado sobre um tronco, debaixo da árvore, à sombra, seu Tonho enrolava o palheiro com o fumo de sua própria produção, acendia-o com uma caixa de fósforos “Paraná”, tragava e soltava uma baforada de fumaça com aquele cheiro horrível para quem não gosta e aquele cheiro delicioso para quem gota de fumar, dizendo:

- Vai chover, vai chover, vai chover…

O sol já diminuido suas forças lá no horizonte e o seu Tonho ali, sentado, fumando e pensando até que chega o seu Juca e o seu João para aquela conversa de fim de dia. Uma palavra, um discurso inflamado do seu João e a mesma frase do seu Tonho:

- Vai chover, vai chover, vai chover…

Ao longe ouve-se o grito de uma mulher:

- Vem pra casa Tonho, já está anoitecendo…

Mais algumas palavras e seu Juca e seu João se despedem. Seu Tonho fica mais um pouco, sentado no tronco, fumando palheiro e olhando o horizonte a procura de algo que um dia perdeu. Seus pensamentos saudosistas são interrompidos pelo alerta da mulher que insiste em seu retorno à casa. Ele olha mais uma vez para longe, por sobre a plantação de fumo de um lado e os imponentes girassóis de outro e quase rola uma lágrima no seu rosto sofrido e já meio maltratado pelo tempo. Pela primeira vez o cão late para, na minha interpretação, consolá-lo já que era cúmplice e assistente do fato acontecido.

Seu Tonho volta à casa e a xícara de café preto já meio frio jaz sobre a mesa ao lado do pão de milho caseiro e do queijo branco colonial. Ouve uns resmungos da Amélia, que está sentada à mesa com um lenço na cabeça e um avental para evitar que os respingos de geléia de morango que estava preparando sujassem seu vestido, alimenta-se troca algumas palavras, ajuda a recolher a louça e vai até a sacada, senta-se na cadeira de balanço e seu olhar perde-se, novamente, no horizonte. Todas aquelas lembranças retornam à mente, lembranças que pensara adormecidas nos confins do seu cérebro, mas que afloraram tão lucidamente quando percebeu a presença da sobrinha do vizinho, vinte anos mais nova, cujos traços e personalidade e cabelos castanhos e olhos verdes e o sorriso largo, lembravam tão docemente da sua “Leonor”.

Tonho coloca os óculos, pega o livro que está lendo ( Jardim dos Girassóis de Lygia Barbiere Amaral), olha para o cão que lhe faz companhia e se joga nas páginas do livro, sem antes proferir sua habitual frase:

-  Vai chover, vai chover, vai chover…

9 de fevereiro de 2010

Porque ninguém quer viajar nos vagões vazios?

Os trens partem nos trilhos paralelos e há poucos vagões vagos.

Parece que todos estão superlotados de pessoas loucas para chegar ao seus destinos.

Pessoas, loucas, destinos.

Tudo parece confundir-se e a ordem dos vagões respeita o alfabeto ou as necessidades, ou os sentimentos,  ou a fragilidade, ou a importância de cada um.

Almas vagam no primeiro vagão a procura de suas gêmeas o que é dificultado pela alta velocidade do trem que voa e confunde os pensamentos delas. Apaixonados são encontrados no segundo vagão que miram o horizonte com os olhos de quem mira um prato de tiro ao alvo.

Há vagões vagos e neles ninguém quer viajar.

No terceiro vagão, totalmente lotado, estão os narcisistas que pensam que nós não sabemos quem eles são. E há os curiosos, os desatentos, os inconsequentes, os presunçosos, os vingativos , os lerdos, os corruptos, os inescrupulosos.

O trem segue sua trajetória e de estação em estação renova seus passageiros que descem e sobem por suas escadas minúsculas, adentram a porta em busca de bancos, de diálogos, de amizades, de reconhecimentos, de glória, de prazeres, de sucesso ou de prestigio e por vezes nada encontram, viajam ensimesmados num cantinho que se lhes restou, com o rosto enfiado no jornal de ontem que alguém por ali esqueceu.

O trem anda e anda e os passageiros se renovam. Já não os reconheco mais. E les se misturam no primeiro e no segundo e no terceiro vagão, mas e por que nos vagões vagos ninguém quer viajar?

Última parada.

O maquinista já acionou os freios e o trem, suavemente, desliza por sobre os trilhos e vai parando, parando, parando…

Todos descem vagando para o leste, norte e sul deixando pra trás as lembranças da viagem: alguns pensamentos inconsequentes, as idéias trocadas com um desconhecido, o olhar discreto disparado em direção àquela morena, os rastros, os cheiros e odores como daquela moça de vestido vermelho cujo perfume suave nos fará lembrar dela por muito e muito tempo, a bela paisagem que ficará em nossa memória.

O trem de nº 1177 parte em direção a central e agora, por motivos óbvios, todos os vagões estão vazios, mas isto não responde a minha pergunta:

Porque ninguém quer viajar naqueles vagões vagos?



4 de fevereiro de 2010

A imagem no espelho

Um espelho

uma imagem.

A caverna que esconde os morcegos

mostra a escuridão

de um poço sem fundo.

A imagem se despedaça

o espelho quebrado

dilacera a face

que não mais se agrupa

A máscara cai.

A verdade

transforma em cacos

os reflexos

de uma imagem

que  não era

a minha,

nem a tua,

nem de ninguém.

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