Artigos de novembro de 2009
O dia em que ele flutuou
Era um salão antigo, tipo aqueles que se vêem nos filmes americanos. Duas entradas, uma mais à esquerda, porta de madeira, grande, pesada, que só era aberta em ocasiões especias: festas, casamentos, exibições de filmes e outra , mais à direita, menor, mas também de madeira que era usada no dia a dia para dar entrada e saída aos frequentadores da ala menor do salão onde ficava o BAR; um balcão de pedras rebocadas, mas com algumas falhas, lascas nas pontas, umas mesas de madeira quadradas com cadeiras de palhas, onde alguns sentavam a jogar baralho: canastra, “schow ckopf”(nem sei se é assim que se escreve este jogo de origem alemã), tomando a sua gazosa ou o “martelinho” de cachaça; um freezer cheio de sorvetes, caseiro, gostoso, fabricado pelo próprio proprietário, uma mesa de sinuca com bolas azuis e vermelhas e cujos tacos “viciados” disputávamos aos tapas, uma pia amarelada pelo tempo e uma torneira, de plástico, preta, cuja peça decorativa não sei o que fazia ali. Poucas luzes, eu diria, uma penumbra mesmo de dia, pois havia somente uma janela de oitenta centimetros com vidros quadriculados e em cuja transparência o sol se negava a penetrar.
No salão mais amplo um piso de madeiras largas, escuras, pintadas a óleo cru, que rangiam por onde se andava. Filmes do “Teixeirinha” assistíamos ali, sentados nas cadeiras de palha, uma atrás da outra e até uns bancos de madeira mais lá pro fundo, num telão improvisado.

Da porta para fora uma escada com sete degraus que dão ao pátio de chão batido circundado por pedras de cascalho pintadas a cal branco, uma árvore de cinamomo dando sombra a quem dela precisasse.

Todas estas lembranças afloraram madrugada passada na minha mente quando, no sonho, me vi flutuando escada abaixo, sem descer degrau por degrau. Simplesmente flutuando, não descia os degraus, lutava contra, mas os pés não tocaram o chão antes de chegarem na calçada do outro lado da rua.
Acordei atordoado, ainda e fiquei procurando razões para que estas lembranças se apresentassem desta forma para mim. O salão já foi, a tempos, demolido dando lugar a outro prédio, mas as imagens foram tão nitidas, a escada, o outro lado da rua, eu flutuando, e o filme todo passando.
Deve ser algum sinal, não sei, quem sabe em outro sonho…
Caminhando na solidão
Caminhar, exercitar-me numa cidade onde as ruas e avenidas são planas não me cansa.
Fim de expediente, tênis, bermudas, camiseta e “pernas na estrada”. Trinta minutos, uma hora, ducha quase fria e como todo bom gaúcho, tomar um bom chimarrão.
O vento sopra e balança o sininho pendurado na sacada e o som produzido passa um sentimento de tranquilidade, de paz.
O apartamento está deserto, nem o Fredy está hoje, para correr sobre o estofado, receber-me à porta quando chego, ou miar aqueles miados chorosos, implorando ração, atenção, colo ou cama.

A TV ligada, sem o som, contribui para amenizar a solidão. O jornal de ontem me conta velhas novidades em forma de notícias, mas o Eduardo Galeano me envolve na leitura de suas “As palavras Andantes” e em sua “Janela sobre o medo” ele diz:
A fome come o medo. O medo do silêncio atordoa as ruas. O medo ameaça.
Se você amar, vai pegar aids
Se fumar, vai ter câncer
Se beber, vai ter acidentes
Se respirar, vai se contaminar
Se comer, vai ter colesterol
Se falar, vai perder o emprego
Se caminhar, vai ter violência
Se pensar, vai ter angústia
Se duvidar, vai ter loucura
Se sentir, vai ter solidão.
E não preciso escrever mais nada…
Sempre invejei e invejarei as formigas
Sempre invejei as formigas, sua organização, a divisão de tarefas por castas, sua limpeza e eficiência.
Sempre imaginava a nossa sociedade inspirando-se num formigueiro, no seu funcionamento, tanto que muitas vezes observava as pessoas, os carros, do alto de edifícios, ou de qualquer outro lugar alto e, pelo menos no caminhar das pessoas ou no andar dos carros via-se uma certa organização, uns cedendo espaço, outros ocupando, pessoas e carros fluindo e seguindo o fluxo, mas de uns tempos para cá a organização se desorganizou de tal forma que há muitos conflitos, encontrões, batidas, quebra de hierarquias, serviços ineficientes…
Fui, então, pesquisar sobre as formigas, sobre os formigueiros e
“Uma sociedade extremamente organizada, que não possui nenhum tipo de liderança. Parece impossível? Não no mundo das formigas. Pertencentes ao mundo dos insetos sociais…cada uma cumpre o seu papel…”
encontrei este texto da Juliana Tiraboschi no Galileu que descreve tudo com detalhes e cada vez mais relaciono nossa sociedade com a das formigas e fico na esperança de um dia viver numa destas sociedades perfeitas.
Na pesquisa descobri, também o termo eusocial. A formiga é um animal eusocial.
O termo eusocial é conferido aos animais que apresentam as sociedades mais complexas, ou seja, aqueles que compartilham três características: uma sobreposição de gerações em um mesmo ninho, o cuidado cooperativo com a prole, e uma divisão de tarefas (reprodutores e operárias).
Será que nunca conseguiremos nos espelhar nelas? Será que nunca nos organizaremos nem conseguiremos viver, fazendo cada um a sua parte e sem termos que seguir um lider maior?
Continuo invejando e com esperanças, muitas esperanças…
Quando o cliente perde a razão
Tem dias que parecem noites e noites que são verdadeiros breus. Mas não é de noites que quero falar, é de dias…
Nos últimos dias a natureza não tem sido muito agradável com os habitantes da nossa cidade/estado. É vento, é chuva, é tempestade, é inundação, é luz que se acaba, é internet que não funciona, é loja que fica semi-aberta sem poder dar aquele padrão de atendimento aos clientes (alguém ainda não sabe que, nas minhas horas vagas, trabalho numa loja de varejo?) é cliente nervoso a procura de soluções para seus problemas e especialmente este de hoje a tarde.
O dia virou noite, energia elétrica desligada, portas fechadas para que vento e chuva não adentrem, caixas não funcionando por conta do sistema fora do ar, mas o que o cliente tem com isto? Nada.
O liquidificador do cliente “pifou”, queimou. O cliente vem à loja atrás de soluções. O vendedor explica o processo de envio à Assistência e o tempo de retorno. O cliente pensa, repensa e conclui que não pode esperar pelos seus sucos, suas liquidificações e, revoltado, indignado, apesar do pronto atendimento do vendedor e com a “cabeça super quente” pega o produto, olha em volta e arremessa o ao chão.
Catapluft, scrasx, proonn, é o que se ouve. Pedaços de liquidificador passeiam sobre o piso da loja, em frente ao balcão e um simples problema de motor, transforma-se em problema nenhum, pois não sobrou nada inteiro do produto e agora não tem mais solução.
Já vi muita coisa nesta área, mas um cliente tão “fora da casinha” nunca. O pior é que ele perdeu toda a razão ao quebrar o produto e dispensar, desta maneira, o conserto do mesmo.
Eu não disse que tem dias que parecem noites escuras…


Então é natal…
A fome ressurge
e os pequenos
animais racionais
imploram o alimento.
Semáfaros se abrem
e fecham
e eles continuam, ali,
implorando.
Os homens em suas
jaulas refrigeradas
olham com desdém
e pisam nos
aceleradores.
Nos “xopins”,
humanos
passeiam nos corredores
abarrotados
e as lojas
exibem seus papais-noéis.
É dezembro
e o Natal,
tal qual a mensagem da manjedoura,
reascende as esperanças
dos miseráveis.