Artigos de outubro de 2009
Compensações

Esta vida de trabalhador em empresa privada é muito desgastante.
Trabalhar, trabalhar, trabalhar.
Mas quando as metas são atingidas, quando se consegue alcançar os objetivos e a filial em que trabalhas é uma das destaques da promoção em toda empresa e és convidado a passar dois dias num hotel 5 estrelas, com acompanhante e tudo, juntamente com colega da filial e de outras filiais e parte da direção da empresa, é muito gratificante.
Viagem, estadia, passeios, jantar festivo com música ao vivo para dançar e ainda prêmios, o que se pode des
ejar mais, senão, a
gradecer e se sentir orgulhoso de trabalhar numa empresa assim…


Claro que eu te vi
Chovia, o bailado dos guarda-chuvas no seu começo, as poças d’água se formando, as pessoas andando devagar, algunas correndo e tu na calçada do outro lado da rua com aquela capa de chuva transparente e o guarda-chuva que compramos em Estocolmo.
Caminhavas despreocupada falando ao celular e te assustastes quando percebestes-me, parado no trânsito engarrafado. Confesso que não te vi num primeiro momento pois os vidros do carro estavam fechados e eu conversava com a Sheila que me acompanhava.
O sinal abriu, segui em frente e ai sim te senti. A maneira como caminhas, os olhos castanhos, os cabelos loiros, o teu sorriso mesmo nesta situação do tempo chuvoso, via-se que estavas feliz.
Só mudastes a expressão quando me vistes. Não sei o que pensastes, mas claro, claro que eu te vi, e todo passado em segundos manifestou-se na minha memória e a saudade foi o sentimento predominante.
Claro que eu te vi, mas disfarcei para não prolongar esta história inacabada que já acabou.
O carro seguia, a chuva molhava, o pensamento insistia nas suas incursões sobre o passado, mas tua caminhada em sentido oposto ao meu nos mostrava toda a realidade.
O sinal fecha, breco o carro e o diálogo com a Sheila recomeça.
Claro, claro que eu te vi…
A gata da vizinha está no cio
Eu já desconfiava. As evidências eram muito evidentes.
Outro dia, perto do edifício em que moro, ela atravessou a rua correndo e quase foi atropelada pelo Fox vermelho do Eduardo que mora na outra quadra.
Ontem à noite desci para ir à padaria e a vi se enroscando num gato e quando me perceberam esconderam-se atrás da árvore centenária que tem na frente do prédio.
Depois, eu desliguei. Esqueci o aumento do dólar, a valorização da bolsa, as constantes mudanças no clima, o jogo de cartas marcadas no caso do impeachment da governadora Yeda, a solidão e apaguei deitado sobre o lençóis cobrindo o colchão novo e importunado pela luz clara da televisão cujo timer marquei em 30 minutos para diminuir a conta da luz enquanto eles não refazem os cálculos das tarifas.
Duas da manhã e acordo de sobressalto.
Ouço um gemido intenso, insano, inconfundível.
O som vem de fora. Abro a janela do quarto e o céu escuro está iluminado pelas poucas estrelas visíveis e pela lua que reflete sobre o telhado da casa ao lado, onde a gata da vizinha está miando, “uivando”, gemendo, gritando, emitindo sons que são correspondidos pelo gato, o mesmo que se escondeu atrás da árvore com a gata, outro dia.
Agora tenho certeza pois da maneira com que eles estavam ligados e da forma como se tratavam e se engalfinhavam, a gata da vizinha está no cio e por exatos 37 minutos o som do amor entre eles invadiu involuntariamente meu quarto.
Caminhos
A ausência
escamoteia
e aflora
sentimentos
desconhecidos.
A presença
devolve
e normaliza
nossa paixão.
No fim
o começo
se modifica
e as mudanças
perpetuam
nossos caminhos…


A alma é a alma
O barulho da rua me incomoda. A cortina balança movimentada pelo vento que sopra na janela do apartamento. Outra moto passa e seu ronco barulhento penetra nos meus ouvidos e a voz do Bonner se emudece e não fico sabendo da notícia da hora. Continuo imóvel na poltrona a meditar sobre mudanças, conceitos, amizades.
O pensamento é uma coisa muito estranha. Um emaranhado de palavras e imagens que se acavalam e se sobrepõe, umas às outras. Uma simples imagem realimenta outra e nos coloca em ambientes tão pertos e, ao mesmo tempo, tão distantes, que nos perdemos em meio aos sonhos ou à realidade
O tempo modifica os nossos conhecimentos, os nossos conceitos.
O tempo modifica nosso corpo e parece que nossa alma o acompanha. A cor azul do vestido rosa confunde nosso discernimento e nossos ouvidos escutam o que querem escutar, nossos olhos veem o que querem ver, nossos lábios tocam o que querem tocar e nossas mãos agarram as oportunidade que se apresentam.
O calor do dia, com este sol escaldante, parece que danifica os nossos neurônios e eles, por vezes, são incapazes de se entender, uns com os outros.
Ouço sons de violinos e pianos, e os Bosques de Viena me fazem viajar. Percebo borboletas pretas sobrevoando o teto e pousando nas paredes do quarto.
A debilidade do corpo e a insanidade da mente não ofuscam a beleza da alma.