Artigos de agosto de 2009
Não a obrigatoriedade
A fila era grande, meio desorganizada, alguns em grupinhos conversavam, outros, concentrados no aguardo e a porta não se abria. Contei os guris, eram uns trinta esperando a seleção começar. Não conhecia ninguém. Todos da minha cidade e eu não conhecia ninguém. Será que eles estão ali porque querem ou por um dever, uma obrigação?
Observei-os: Uns praticamente homens feitos, outros ainda parecendo umas crianças, mas todos com 18anos completos. E será que sabiam o que queriam ali, naquela fila, a espera da seleção? Perguntei. Uns respondendo que queriam ser dispensados para continuar os estudos, não perder o emprego, outros dizendo tratar-se de uma valiosa oportunidade de emprego, crescimento e futuro, mas todos protestando contra a obrigatoriedade do serviço militar.
Século XXI, jovens com 18 anos em todo Brasil obrigados a se alistar e tendo o seu destino traçado por alguém que foi destinado da mesma maneira?
“É a treva” como dizem certas pirralhas globais.
Penso que está na hora de acabar com estas imposições, pois tudo o que é obrigatório não tem legitimidade e se fosse tão bom como muitos dizem, não seria, redundando, obrigatório.
Só falta eu descobrir agora que o voto é obrigatório, que ter CPF é obrigatório, Carteira de Identidade, de motorista é obrigatório, que …
Socorro!!! É a treva o fim!!!
Cuidar da alimentação é importantíssimo para manter o corpo e mente sadios.
Estamos todos gordos um pouco acima do peso. Ok, quase todos. Tem gente que exagera, não consegue alimentar-se só do necessário. Não conseguem gastar mais calorias do que ingerem. E fazem academia. E fazem caminhadas. E fazem pesquisas na internet sobre dietas milagrosas para emagrecer e prometem a si mesmos seguir rigorosamente para alcançar o peso ideal, mas sucumbem na primeira tentação e se entregam a um dos maiores pecados, o da gula.
Mas como resistir? Como comer alface, brócolis, brotos de alfafa, cenoura ralada? Como fazer uma refeição balanceada se o que nos chama atenção é a lazanha, a pizza, as massas com aqueles molhos deliciosos, o churrasco (uma picanha ou uma costela gorda), os lanches com maionese e bacon e calabresa e queijo, pastéis fritos e brigadeiros e papos de anjo e sobremesas de todos os tipos e chocolates e isto e aquilo?
Só neste mês de agosto tivemos três aniversários lá no trabalho regados a cachaça, cerveja tortas, salgadinhos e refrigerantes. Como resistir?
Já coloquei aqui no blogue a receita de um sanduíche que adotei para o meu dia a dia, mas penso que a receita certa é o equilíbrio, comer de tudo sem exagerar, sem esquecer das frutas, da água, de alimentar-se mais seguidamente e de sempre olhar naquele espelho de corpo inteiro que alguns tem em casa e outros podem aproveitar o das lojas, para que vejamos em que nos transformamos, se o que vemos é o que somos, se o que vemos é o que queremos ser.
Não devemos idealizar um corpo, nem aceitar as imposições/sugestões da mídia e da publicidade e das indústrias, devemos aceitar o nosso biotipo, adequar-nos ao nosso verdadeiro peso e com isto melhoraremos consideravelmente nossa saúde e não será necessário implantar um “chip” para regular o funcionamento do nosso corpo mente e alma.
Claro que depois de tudo isto, de abstermos-nos de algumas tentações e, dentro do equilíbrio que falei no parágrafo acima, poderemos até comer aquele “Ferrero rocher” que tanto gostamos.
Com licença que vou ali comer o meu…
Quem será que gosta de velórios e enterros?
Não gosto de velórios. Não gosto de enterros. Não gosto.
O Edmundo gostava, pois indo aos velórios e enterros, sabia que não era ele que morrera e nem era ele que estava ali deitado no caixão. Fui ao enterro e ao velório dele e consegui captar este seu pensamento, mas não peguei gosto pela coisa, talvez seja um trauma de infância.
Corríamos atrás da bola, ao lado da igreja, naquele terreno baldio, quando a irmã do Renato veio chamá-lo aos prantos: – O pai morreu , o pai morreu…e sairam, os dois, correndo pra casa. Continuamos jogando desfalcados, agora, do melhor goleiro da escola, que jogava de “kichutes”, abrigo e joelheiras e nós de calção, sem camiseta e pés descalços.
O Renato sofria de astigmatismo e usava óculos que lhe dava um ar intelectual (não os tirava nem para jogar futebol) e sempre dizia que quando crescesse seria médico. Não sei se conseguiu.
No fim da “pelada” e depois das rotineiras discussões, quase brigas, futebolísticas que nos levavam a descoberta da pólvora, caminhamos estrada acima com destino a nossas casas e nos deparamos com um movimento anormal na casa do Renato. Muitas pessoas dentro e fora da casa, crianças circulando a exmo, cavalos amarrados em postes específicos e o Piloto, cachorro do pai do Renato, uivando, latindo, chorando pelos cantos. Caiu a ficha! O homem morrera mesmo e todos ali velando o seu corpo.
Logo veio-me a mente a imagem do Sr. Alfredo, pai do Renato. Um homem alto, forte, voz grossa, mastigando seu charuto, sempre de bombachas e botas , esporando seu cavalo pelos campos, tocando a boiada de pasto em pasto (trabalhava no frigorífico) e agora estirado naquele caixão, pálido, branco, onde o seu grande bigode preto se ressaltava ainda mais e as rugas marcando o tempo que já passou em seu rosto.
A casa não era grande. A sala não era grande, mas os amigos, os conhecidos, os não tão amigos nem tão conhecidos passavam pelo caixão para dar o último adeus. Velas, só velas iluminando aos presentes, dando um ar sombrio ao lugar e espalhando um cheiro horrivel que ficou impregnado na camiseta que eu usava, por meses.
O Elói foi o primeiro a dar os pêsames à família, depois eu, o Flávio, o Osmar, quase o time completo, mas meu irmão ficou parado, sem se manifestar, o que me levou, discretamente, a incentivá-lo. Reagiu empurrando-me, sai cambaleando, tropecei numa cadeira de palhas e cai sobre o castiçal, derrubando as velas que cairam perto da cortina colorida já em chamas e apagadas pelo Alarico, irmão mais velho do Renato. Senti um forte aperto do dedo polegar e indicador na minha orelha direita puxando-me para fora da sala, puxando-me para fora da casa, puxando-me até a quarta casa acima onde morávamos e só então vi a cara raivosa da minha mãe pelo ato praticado. Não tinha argumento que me inocentasse desta presepada.
Foi o meu primeiro velório. Não foi o meu primeiro enterro, mas ainda lembro hoje, dos homens carregando o caixão pelas alças, daquela gente toda indo em direção ao cemitério e do riso sarcástico dos meus amigos e do meu irmão pelo fato de permanecer em casa, de castigo, por algo que não cometi sozinho no velório do Sr. Alfredo, o pai do Renato, nosso goleiro.
Definitivamente não gosto de velórios e enterros. Não, não gosto…
Vida e morte
Corpos flutuando
Corpos submersos
Corpos no fundo das águas.
O sangue espalhado sobre a superfície do mar
Mistura-se com a água.
A lancha zarpa e
deixa um rastro de culpa
ou inocência.
O homem desembarca na ilha
em busca de novas vítimas.
A ponte entre a vida
e a morte
está estabelecida


Harmonia
A cidade quase dorme.
Observamos as luzes que a iluminam do alto do morro em que nos encontramos. Elas piscam e se concentram e se alastram até onde a vista alcança. Lá ao longe vemos a torre da igreja iluminada e ouvimos o sino tocar. A lua desponta e aos poucos ilumina a escuridão. Estamos sentados nesta grande pedra olhando o horizonte e percebendo que o dia se esvai. Os pássaros já se calaram e agora as corujas tomam o seu lugar.
Será que o paraíso é aqui e nem percebemos?
O terreno é íngreme, há árvores, há flores. Vez por outra descemos o gramado até a fonte daquela água límpida que usamos para beber e para molhar o gramado que plantamos. E cortamos as gramas e arrancamos o inço e plantamos ibíscos
e comemos bergamotas e observamos os tucanos que sobrevoam o mato de eucaliptos e trocamos idéias sobre a planta da casa que tu desenhastes e sorrimos felizes com nossos feitos, mas cansados saímos do paraíso harmonioso e voltamos à cidade.
A cidade agora dorme e nós em retorno passamos pelas ruas desertas de homens, de cores e de sentimentos.
A plantação e a construção continuam.