Artigos de maio de 2009

31 de maio de 2009

Coletânea Artesanal

Hoje estou por aqui, no Coletânea, mais uma colher de chá da Lunna.

Prestigiem

28 de maio de 2009

Uma carta fora do baralho

E foi isto o que aconteceu.

Ela saiu em disparada, atropelou até aquele pedestal com a publicidade da EBCT, porta a fora, com raiva, muita raiva. Depois acalmou-se e analisou mais friamente a questão:    Fora ao correio despachar uma encomenda via Sedex (aquele livro de poemas) para uma amiga do Recife. Enfrentou a fila, trocou algumas palavras com Júlia que também lá estava, atendeu o celular que insistia em tocar, até que, na sua vez, foi atendida com simpatia, sorrisos e conversa fácil pelo atendente ao preço de R$ 14,55 e recebeu dele aquele envelope tamanho ofício entre outras correspondências para  si e para a empresa.

Ela nunca escondeu de ninguém que era uma menina muito curiosa.  Abriu o envelope, pegou a folha e leu detalhadamente cada palavra, cada frase, cada parágrafo, a carta. Seu rosto transformou-se, ruborizou olhando ao redor e percebendo a todos que a observavam preocupados, menos a Júlia que já se fora, depois surgiu a raiva e a necessidade de sair correndo para a rua pois a sala do correio a sufocava, o conteúdo da carta lhe desagradara tanto, correu e tropeçou no pedestal.

Agora estava ali, imóvel, na calçada. O recibo do Sedex em uma e a carta mais o envelope na outra mão, tentando recompor-se do impacto da notícia, mas a ira, a raiva, não deixava que raciocinasse.

Leu, novamente, releu, mas não conseguia assimilar. Porquê? Logo agora que tudo estava encaminhado, que as pedras foram tiradas do caminho, que as experiências anteriores ajudaram a superar as barreiras. Porquê?

As pessoas saiam do Correio e ainda a olhavam surpresos e ela não se recuperava , permanecia estática, sem dar continuidade aos passos em direção aos seus afazeres, até que Júlia, já em retorno de uma outra tarefa executada, a viu, aproximou-se e disse:

- Não vistes um envelope sobre o balcão do Correio? O Antônio me entregou e…

Ela sorriu. Transformou-se, olhou no remetente e viu que não o conhecia, viu que a carta não era endereçada a ela e sentiu-se aliviada pois tudo o que estava escrito não fazia sentido para ela, no momento e aquele desconforto, aquela pressão que sofrera, agora se transferiria à Júlia e, talvez, ela também atropelaria o pedestal.

E foi isto o que, realmente, aconteceu.

26 de maio de 2009

Somente um vulto

Ontem,

noite escura

um vulto,

passos.

Folhas balançando nas árvores,

uma pedra atinge a única lâmpada acesa.

Pavor

e medo.

Em fuga

tropeças

e cais

e rolas

e acabas nos braços

do vulto

que sou

eu.

24 de maio de 2009

A cueca cor de rosa do Maurício

A questão não era a cor da cueca e sim qual era a intenção dele ao comprá-la naquela tarde.

A loja não estava cheia, mas as vendedoras não estavam disponíveis e ele teve liberdade para passear entre as gôndolas, olhar as calças jeans, experimentar as jaquetas da moda e da época, pois o outono estava no fim e o inverno prometia muito frio, observar as camisetas, as camisas e até os blusões de lã que estavam, estrategicamente, expostos naquela prateleira perto do corredor. Vez por outra procurava as vendedoras e não encontrava nenhuma livre, todas ocupadas, atendendo, e não observando o cliente em potencial que ali aguardava.
Observou mais um pouco a movimentação, viu que entravam mais pessoas na loja do que saiam e sentiu que seria difícil comprar aquele presente que motivou a sua ida à loja.
Caminhou, olhou distraidamente para lá e para cá, caminhou, virou-se e esbarrou numa menina loira, que olhava roupas íntimas.
Ela olhou no fundo dos olhos dele, analisou-o da cabeça aos pés, pegou o soutien e a calcinha que cairam ao chão quando do toque e parecia querer terminar as compras que estava a fazer.
Olhares, somente olhares, nada de palavras. Maurício, estático, observava. Ela pegou um pacote na prateleira, mexeu a cabeça para o lado e jogou os cabelos a exmo, estendeu o pacote a ele e disse:
-Compre.
Ela foi em direção ao caixa da loja e Maurício olhou para o pacote, quando levantou os olhos já não mais a via. Sumira como aparecera: sem se anunciar e sem se despedir.
Maurício voltou sua atenção ao pacote que ela lhe entregara e percebeu que era uma cueca. Abriu o pacote, olhou a peça e encontrou um pedaço de papel dobrado onde estava escrito:
“Escolhida a dedo. Gosto desta cor, pareceu-me o teu tamanho, se servir me ligue, meu nº é … assinado Ane”

Comprar aquela cueca tornou-se, aos olhos de Maurício,uma obrigação. Não importava cor, tamanho, tipo, marca, preço, vendedoras que não atendiam, fila enorme no caixa ou qualquer outro motivo contrário que fizesse com que ele não a comprasse.
Aquela seria a compra do ano.
Sem preconceitos, mas em busca, quem sabe, de um novo relacionamento, Mauricio adquiriu aquela cueca cor de rosa, tamanho M e de preço razoavel, para em seguida, de posse do celular que deixara no automovel, ligar para o numero que constava no bilhete. O nº da Ane.

Saindo da loja e dirigindo-se ao automovel veio-lhe a mente uma dúvida cruel:  Porque uma moça loira que estava comprando roupas íntimas naquela loja movimentada sugeriria uma compra a um completo desconhecido? Porque dentro de um pacote de cuecas teria um bilhete assinado pela Ane? Seria o destino? Seria coincidencia como falam nas rodas de chopp com os amigos? Seria a alma gêmea que estava ali, quase ao seu alcance? Ou seria uma nova técnica de marketing para a venda de meias, cuecas e lingeris?

Por via das dúvidas, Maurício guardou o bilhete no bolso, foi até sua casa onde está pesquisando, até agora,  sobre estas novas técnicas revolucionárias de marketing…

23 de maio de 2009

Reflexões

Vivemos de lembranças e de saudades de coisas e situações que não mais podemos ter.

Vivemos de ilusões que nos afastam do que é real e os sonhos se agigantam rumo a destinos não sabidos.

Perdemo-nos em meio a ansiedades que debilitam corpo e alma. Sofremos nos labirintos que criamos a procura de saídas que jamais encontraremos. Os medos e as insatisfações sobressaem-se às nossas realizações e a busca insessante dos caminhos nos põe a prova. Lutamos. Vencer a guerra é o nosso objetivo, mas ela é grande e as estratégias traçadas superam algumas batalhas. Não todas.

E o sol de 38°C, daquela tarde outonal com resquícios do verão, esquenta a cabeça provocando reações na memória inspirada do poeta…

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