Artigos de novembro de 2008

20 de novembro de 2008

A primeira vez ninguém esquece

A primeira vez ninguém esquece.

A primeira professora, a primeira bicicleta, o primeiro braço quebrado e as palavras e nomes escritos no gesso, a primeira novela e as demais que são todas iguais, o primeiro campeonato mundial e o 2º e o 3º e o 4º (obrigado Felipão), a primeira namorada que só tu sabias, o primeiro beijo, a primeira desilusão, o(a) primeiro(a) baile festa, o primeiro emprego, o primeiro “porre” naquela sexta-feira santa, o primeiro cigarro fumado, a primeira viagem, o primeiro salário de rapaz trabalhador, o primeiro fusca sinca chambord, as primeiras músicas, o primeiro contato com a realidade econômico-financeira, o primeiro celular da Vivo, a primeira caderneta de poupança confiscada pelo Collor, o primeiro papai-noel, o primeiro carnaval, aquele, o primeiro final de ano, o primeiro filme no cinema “A menina da casa do fim da rua”, a primeira banda de rock, o primeiro tênis, a primeira greve, a primeira briga, a primeira lágrima, a primeira reconciliação, o primeiro blog, o primeiro amor, a primeira mudança, a primeira restituição do Imposto de Renda, a primeira mentira, a primeira verdade, a primeira conclusão, a primeira relação.

A primeira ninguém esquece…

A primeira vez ninguém esquece.

18 de novembro de 2008

A livraria do “Seu” João e a solidão dos pães-de-queijo.

A livraria abrira às 9:00 horas e os livros já estavam fazendo fila para serem folheados pelos seus leitores mais fanáticos. Todos os estilos estavam sendo visitados.

Livros didáticos, livros sobre a história antiga, livros sobre mistérios, livros sobre ficção, livros sobre literatura, livros infantis, livros sobre informática, dicionários, livros com romances intermináveis, livros de crônicas, enciclopédias, bíblias, livros de poesias, livros, livros e mais livros.

A livraria não se contenta mais em ter grandes prateleiras cheias de livros e escadas cheias de degraus que levam aos livros dispostos no mais distante lugar da prateleira daquela sala com o pé direito alto e disponibiliza aos seus freqüentadores mesas, geladeiras com refrigerantes, água mineral com e sem gás, cervejas, sorvetes no freezer maior e até um forno microondas para aquecer aqueles pasteizinhos gostosos de carne de frango, além daquela máquina de café de onde sai um capuccino fenomenal.

Sento-me a mesa de nº 13, portando aquela xícara de café e folheando “As mentiras que os homens contam” do Verissimo, mas com a nítida intençao de observar as pessoas, como aquela senhora que segura um cesto pequeno de vime e caminha admirada por entre as prateleiras; o senhor grisalho que procura, avidamente, um livro no “sebo”; a moça de botas, polainas e mini saia que folheia um livro de poesias de Drumond; o menino que já está no caixa pagando a revista que presenteia o leitor com um objeto imitando animais e que se transforma em pedra; o homem sentado na mesa 5, perto da janela, com dois livros abertos sobre a mesa, mas que está com o olhar perdido no horizonte; um grupo de seis senhoras representando a melhor idade, procurando livros sobre agricultura e alimentação alternativa; uma jovem acessando o arquivo no computador para verificar se já chegou a nova edição do último mais recente livro da Lia Luft e todas aquelas pessoas se acotovelando ao redor da prateleira identificada com “Livros de poesias”, a mais procurada.

Peço outro café e percebo que o homem da mesa 5 já se foi, os livros já se foram mas o mistério do olhar no horizonte perdido permanece. A fila, no caixa, anda com a velocidade de uma corrida de cágados e as pessoas vão lendo as primeiras páginas de seus livros.

Há livros de auto-ajuda espraiados nas pontas das gôndolas a indicar soluções e caminhos e saídas para todos os problemas (de corpo e alma).

Levanta um cheiro de pão-de-queijo fresquinho (ou quentinho) e sinto que é hora.

Hora de escolher.               

Hora de levantar e hora de sair.

Hora de pagar os cafés e os pães-de-queijo que peço para viagem, hora de pagar o livro do Verissimo e pagar aquele livro de poesias, escolhido pela internet, de autor inédito que ainda está no “prelo”, mas que em seguida enviarão ao meu endereço que deixo com a Lê, filha do “Seu” João, dono da livraria.

É hora de tomar o rumo, hora de ler e reler e aguardar o livro. Hora de observar que assim como os livros, as pessoas entram e saem da livraria, as pessoas compram seus livros e comem seus pães de queijos e tomam seus cafés e vão e voltam, mas continuam solitários e focados nas páginas dos livros, nos capítulos dos livros, nas histórias dos livros que teimam em não acabar…

16 de novembro de 2008

A morte de cliente nas Casas Bahia e as compras para o Natal

O Natal está chegando e como todos os anos já estamos providenciando presentes.

É amigo secreto\oculto, é esposa, são filhos, e quem sabe até sobrinhos que receberão presentes. Quanto antes comprarmos não faremos parte daquela massa que deixa tudo para a última hora e nosso estresse pré festas natalinas será bem menor.

Mas o que me leva a falar sobre este assunto é o fato que ocorreu nesta segunda-feira 10 de novembro na maior loja de varejo do Brasil.

Um cliente ser assassinado dentro de uma filial das Casas Bahia, por um vigilante mal preparado, que estava na loja efetuando compras juntamente com a namorada e um amigo é algo que pensei que nunca iria acontecer.

O que levou este vigilante a tomar tal atitude? Teria o cliente amarrotado o estofado no qual sentara? Teria o cliente em questão olhado meio atravessado para o vigilante? Seria o cliente de uma raça inferior ou ainda ter descido em sua nave extra-terrena, ali, na Estrada de Itapecerica na Vila Prel e não poderia entrar dentro de uma loja fazer compras?

Algo precisa ser urgentemente feito.

Até o jornalista Élio Gaspari em sua coluna nos jornais, não entende o tempo que o Sr.Samuel Klein, dono das Casas Bahia, está levando para tomar uma atitude definitiva no caso.

Do contrário, além da dificuldade que o comércio em geral está enfrentando face a crise financeira mundial, teremos de ir às compras com coletes a prova de balas, guarda costas ou até nem ir a elas.

15 de novembro de 2008

Adão,Eva e o incrível paraíso

Adão, Eva, a cobra, a maçã, o paraíso.

Tudo poderia ser diferente.

Quem convenceu quem a cometer atos desaconselhados e proibidos. Quem tentou quem? Quem atirou a primeira pedra?

Tudo poderia ser diferente.

Quando percebo estou a pensar sobre este fato real que me provoca dúvidas e ativa a minha curiosidade e sobre ela traço algumas idéias absurdas.

Adão amava Eva que amava Adão que como todo homem queria seu jantar pronto quando voltava de sua caçada vespertina e queria seu chinelo a espera na saída do banho e queria a garrafa de cerveja gelada a sua espera na sala da TV já sintonizada no seu canal de esportes futebol favorito e queria as batatas fritas crocantes e bem salgadas e queria ver a sala toda limpa e organizada no dia seguinte para começar todo o ciclo novamente.

Eva amava Adão que amava Eva que queria um pouco de atenção, que queria que se lhe notasse as unhas pintadas naquele vermelho colorado e queria que a toalha molhada não ficasse jogada sobre o sofá e queria que prestasse atenção em apenas uma de suas teses sobre o aquecimento global, a fome na Etiópia, o fim da água potável, o nível da educação em todo o Brasil, a crise financeira mundial, a eleição de candidatos alternativos e queria a concordância mínima entre uma diálogo e outro de Eva com ela mesma na frente do espelho.

O paraíso nunca mais foi o mesmo depois que  a proibição sobre o fruto a maçã fez Eva aproximar-se da cobra, ou será que foi a cobra que aproximou-se de Eva, e na clara intenção de reescrever a história iniciar um longo flerte (Flerte fatal) que culminou no primeiro pecado.

Muitas cobras, desde então, tomam o lugar de conselheiros sentimentais, financeiros, econômicos, familiares, amorosos, educacionais, governamentais, espirituais e tantos outros desenvolvendo verdadeiras teses que se analisadas profundamente, facilmente, mostram que o conteúdo é fajuto, os conselhos são interesseiros, as verdades são relativas e em quase todos os casos não levam a nada, a não ser a decisões superficiais como coberturas de bolos em festas de aniversário. Poderia dizer que são bolos de maçãs, mas isto sera uma demasia.

Tudo poderia ser diferente, se conseguíssemos eliminar as cobras que ficam, ali, penduradas no galho das árvores a espera do momento certo para nos dar aquele conselho totalmente dispensável.

Toquem as cobras para seu verdadeiro habitat. Deixem as maçãs amadurecerem na cronologia dos seus ciclos e façam com que nenhum Adão ou nenhuma Eva sobreponham interesses de terceiros a seus próprios interesses.

O paraíso é logo aqui, um pouco adiante ou antes do inferno, depende muito das nossas ações…e é isso que vai fazer a diferença.

11 de novembro de 2008

O enredo de uma história improvisada.

Pronto.

A música já estava tocando na “eletrola” e ele olhando pela janela sentia que algo estava por acontecer.

Premonição? Experiência? Sexto sentido?

Não.

Aquela cena ele escrevera no rascunho, riscara palavras, frases inteiras, substituira verbos, adjetivos e parágrafos. Aquela cena ele lera e relera por milhares de vezes e decorara todos os passos que deveria dar e todos os passos que ela daria, mas o que estava vendo pela janela divergia um pouco do texto original.

Era hora do improviso. Ação e reação. Ele percebeu-a cada vez mais perto e levemente encostou o rosto na porta, aguardando uma batida, um toque de campainha, um abrir direto na maçaneta dourada mergulhada na madeira nobre, um grito, uma chamada, mas nada, nada do exaustivamente ensaiado acontecia.

Mistério.

Dois corpos separados por uma porta de madeira nobre não se tocavam, não se viam, não se sentiam, mas um percebia a presença do outro e um culpava o outro pelo desvio do script da história que não se realizava. Não havia diálogo, nem palavras. Ouvia-se apenas o respirar ofegante de cada um em seu lado da porta e a música que insistia em espalhar sua melodia e letra.

Mas o que dera errado? Seriam os obstáculos tão concretos que nem mesmo o enredo de uma história bem escrita, bem decorada, bem ensaiada, conseguiria transpô-los? Ou seriam os sentimentos tão abstratos e insólitos que ao primeiro obstáculo encontrado se dissipariam no ar?

As mãos dela ainda deslizavam na madeira fria da porta que os separava, como que a procurar as dele e  agora, em fuga, deixava no ar aquele perfume que exalava. Não o cheiro de um frasco francês diminuto, mas sim o cheiro que ele sentiu na primeira vez que a viu, naquele bar de tantas esquinas, que frequentavam e desaparece sem deixar vestígios nem completar a história escrita, reescrita, decorada e ensaiada.

Ele, ali, prostrado, a espera de que algo aconteça para mudar o imutável. A música que não acaba, as taças e o vinho intocados, a mesa posta e as segundas intenções que sucumbiram diante de uma porta que se atravessara no caminho do amor, da conquista, da paixão e da história que não acabou, da história que não começou e da história que nunca aconteceu.

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