A tristeza da felicidade que perseguimos
“Tristeza porque você não vai embora e manda a felicidade em seu lugar”.
Esta frase incrível eu ouvia quase que diariamente, na minha infância, quando minha mãe ligava o rádio AM, naquelas emissoras confirmadas. Hoje a frase tomou conta da minha mente e quando percebo estou repetindo-a, ouvindo-a, lendo-a no ar, a minha frente, em palavras enfumaçadas como as expelidas pelos aviões à jato em exibições festivas.
Sentimentos tão antagônicos cantados em verso e prosa por um cantador gaúcho a demonstrar o estado de espírito de quem canta e/ou de quem ouve.
A tristeza é um sentimento que nos surpreende nas esquinas da vida e que nos envolve, por vezes, de tal maneira que parece que fomos atingidos por um quadro depressivo crônico.
Quando isto me ocorre, lembro-me da frase da canção e do que ela representava para mim quando a escutava, na infância distante, imaginando, então, tratar-se de substantivos que se auto substituiam.
A felicidade anulava a tristeza, que anulava a felicidade que anulava a…, assim como a fome era saciada pelo comer, a sede pela beber, o sono pelo dormir, a necessidade do afeto pelo amor.
Hoje percebo a profundidade do verso desta frase incrível e sinto uma admiração inexplicável pela canção e pelo seu cantor (já não lembro quem é), mas sinto que a felicidade está cada vez mais escondida na imbecilidade das pessoas que colocam para si metas inatingíveis, o que as deixam cada vez mais tristes e frustradas.
A felicidade está aqui, do lado, no sorriso de uma criança que brinca com seu carro imaginário, no gato que pula em direção a mosca que sobrevoa-o, na página final do livro que estamos lendo ou na véspera de um dia iluminado pelo sol ou molhado pela chuva fina e fria na calçada da rua, que é véspera de outro dia que acaba quando a noite chega e que é véspera de outro dia.
“Tristeza vai prá lá, saudade vai também e manda a felicidade em teu lugar”.





