Uma carta aberta ao meu amigo Pedro
Caminhando de um lado a outro do bairro desta nossa cidade interiorana, Pedro, onde o predomínio de pessoas de origem alemã já não se percebe mais, bate-me aquela saudade dos tempos idos em que o maior perigo do trânsito era o atropelamento de um sapo ou um gato, por aquela carroça que usávamos nos domingos para passear nos parentes/amigos distantes (como eram boas as frutas que comíamos nas copas das frutíferas, que subíamos com muita destreza).
Olhar a rua do colégio em que estudava (que já sofreu inúmeras reformas) asfaltada, cheia de quebra-molas, casas e edifícios se acotovelando, faz lembrar-me aquela estrada de chão batido na qual corríamos a brincar de “Pega-pega”, jogar bola e deixar nossas roupas naquele estado propício para comercial de OMO sabão em pó na televisão. A rua já não se chama mais “Rua Seca”, parece que já tem até saneamento básico.
É incrivel, Pedro, mas aquelas roças que atravessávamos, pulando as cercas dos potreiros e infiltrando-nos mato adentro até chegar ao moínho, que ainda hoje existe, (te lembra daquela vez que ficamos a olhar a roda d’água e a serra-fita e nos esquecemos do tempo?) onde comprávamos a farinha de milho que a mãe usava para fazer pães para a família de seis filhos, foram urbanizadas e por onde se olha tem ruas asfaltadas, casas, comércio, indústrias, creches, praças, academias de ginástica e até um cemitério brotou naquela área em que andávamos de bicicleta.
Sabe, Pedro, aquela propriedade rural não se precisa mais fugir dos quero-queros como na época que o colégio nos obrigava oportunizava a visitar em outubro, no dia das crianças, fazendo piqueniques inesquecíveis, nos quais brincávamos do raiar até o pôr do sol e nos jogávamos, volta e meia, no arroio, escondido dos professores/responsáveis por aquele bando de capetinhas? Transformaram-na em um grande loteamento popular para abrigar os trabalhadores vindos de outras cidades e até os da nossa, a procura dos empregos calçadistas.
O nosso bairro, Pedro, está transformado.
As casas não são mais aquelas feitas de madeira com uma cerquinha branca e um belo jardim à frente e uma horta orgânica nos fundos. Muitas grades, Pedro. Muitos controladores, muitas câmeras acompanhando os transeuntes.
O comércio abandonou o velho e bom caderninho, fiado que deu lugar aos carnês controlados por computadores interligados na grande rede.
E as pessoas, Pedro, já não as conheço mais… Tem gente de todas as raças, credos e cores.
Já não posso mais sair a noite caminhando pelas ruelas escuras observando a lua e as estrelas como fazíamos.
O nosso bairro, Pedro, está transformado e é isso que me leva a devaneios e conceitos que não se definem. Ver a cidade mudar desta forma e sentir que eu mesmo transformei-me externa e internamente, faz lembrar-me dos nossos sonhos, das nossas espectativas e das ações que impetramos na conquista deles.
É isso, Pedro. Quando aqui voltares e perceberes que o que falo é real, talvez nem a mim reconhecerás, tantas mudanças, Pedro, pois tudo acaba onde começou…
Esta carta missiva foi escrita baseada em fatos reais e sua postagem foi incentivada pela Lunna que anda surpeendendo em seus blogs.
